Muitos garantem que foi um fato real, e provavelmente tenha sido. A agenda de uma reunião de diretoria de uma grande indústria tinha apenas três itens; aprovar o orçamento de um investimento substancial em um projeto de segurança digital, rever os salários das secretárias executivas e assuntos gerais.
O primeiro item era de longe o mais importante, implicava em alterar diversos procedimentos informatizados e comprar/atualizar vários equipamentos de apoio. O diretor de informática havia contratado um consultor externo para montar um documento com valores e custo/benefício e fazer a apresentação justificada do projeto com uma palestra em Power Point para convencer seus pares. O custo envolvido era alto e o prazo previsto de 18 meses. Antes do início da reunião o consultor distribuiu para cada participante um calhamaço de 108 páginas detalhando a sequência de eventos e alocação de custos de cada etapa. Antes de iniciar de avaliar o trabalho do consultor o CEO da empresa perguntou ao diretor administrativo se conhecia o teor do documento e, principalmente, se estava de acordo. Ante uma resposta positiva, julgou perda de tempo analisar tudo em detalhes e considerou a proposta aprovada, encaminhando os trabalhos para o segundo item da pauta. Sem uma razão aparente um dos diretores solicitou um aumento de salário para sua secretária, houve quem atribuísse o fato a serviços extras, prestados fora do horário de trabalho e em um ambiente externo à empresa, houve alguns minutos de discussão e, para evitar distorções, ficou decidido que todas as auxiliares diretas dos diretores teriam seus salários reajustados por um mesmo índice.
Decididos os dois pontos principais, o colegiado de diretores passou para a pauta de serviços gerais, começando pelo comentário do diretor administrativo que os custos com água e cafezinho tinham subido mais de 30% nos últimos meses. Seguiram-se quatro horas de acaloradas discussões, presenciadas pelo atônito consultor externo.
Os diretores responsáveis pela administração de uma empresa com mais de 3.000 funcionários gastaram pouco mais de meia hora para aprovar um investimento poderia inviabilizar os resultados financeiros nos próximos anos e um aumento de salários para seis secretárias sem nenhuma justificativa plausível. Depois ficaram quatro horas discutindo uma despesa menor que o aumento concedido ao grupo de auxiliares.
O consultor conseguiu identificar uma lógica neste processo. Quase nenhum deles tinha ideia sobre a importância da modernização de serviços telemáticos, alguns entendiam e concordavam sobre os prejuízos profissionais e, principalmente, pessoais que uma secretária infeliz podia causar. Entretanto todos, sem exceção, tinham pleno conhecimento sobre cafezinho e qual o custo envolvido, assunto sobre o qual podiam opinar com autoridade.

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