Por J.R. Guzzo
Abril de 2019
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GUARDIÃES - Dias Toffoli e Alexandre Moraes
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É fato sabido que o Supremo Tribunal Federal, pelo
comportamento pessoal de parte dos seus membros, se transformou há tempos no
principal causador da instabilidade jurídica no Brasil. É uma aberração. O STF
é justamente o órgão que deveria garantir o principal atributo da aplicação da
justiça numa sociedade civilizada ─ a previsibilidade das decisões judiciais,
elemento indispensável para dar aos cidadãos a segurança de saber que os
magistrados vão proceder sempre da mesma forma na aplicação das leis. Sem isso
não há justiça de verdade; há apenas os caprichos, as neuroses e os interesses
materiais de quem está com o martelinho de juiz na mão. Não é apenas a
estabilidade jurídica que está indo para o saco. A conduta degenerada de
diversos membros do STF acaba sendo, também, uma ameaça constante à própria
estabilidade política do país, com a produção irresponsável, incompreensível ou
inútil de crises com os poderes Executivo e Legislativo, conflitos com porções
diversas da sociedade e agressões à lógica comum. Tudo isso, nos últimos dias,
ficou ainda pior. Dois ministros, o presidente Antônio Toffoli e Alexandre
Moraes, mergulharam num surto de decisões extravagantes, totalitárias e
denunciadas como puramente ilegais por muitos dos juristas mais respeitados do
país. Resultado: tornaram-se uma ameaça direta às instituições brasileiras. São
eles, mais que quaisquer outros indivíduos, quem mais se esforçam hoje para
destruir um dos três pilares da democracia que existe por aqui ─ o Poder
Judiciário.
Toffoli e Moraes são duas nulidades; não irão a lugar
nenhum com seus acessos de furor ditatorial e não vão, no fim, conseguir o que
querem. Na verdade, já não conseguiram. Sua história, como todo o Brasil ficou
sabendo, é rasa, escura e miserável. A revista digital Crusoé, parte da
organização jornalística O Antagonista, publicou um trecho da delação do
empreiteiro Marcelo Odebrecht, réu confesso de corrupção maciça no governo
Lula, condenado e cumprindo hoje pena de prisão domiciliar. Nessas declarações,
que integram um documento oficial da Justiça como parte inseparável do seu
longo processo de delação, Odebrecht se refere a Toffoli ─ descrito por ele
como “o amigo do amigo do meu pai”, ou seja, como amigo de Lula ─ numa sombria
conversa envolvendo construção de usinas e a Advocacia-Geral da União, à época
dirigida pelo atual presidente do STF. Pronto. Toffoli entrou imediatamente em
modo de Rei da Babilônia e mandou o colega Moraes se lançar à expedição de uma
bateria de ordens dementes ─ suspensão da publicação da revista, multas diárias
de 100.000 reais, censura, ameaça a outros meios digitais e por aí afora.
O resultado foi um desastre integral. O STF conseguiu,
ao mesmo tempo, violar a liberdade de imprensa, aplicar punições sem a
conclusão de processo legal e sem a produção de uma única prova, ignorar a
decisão da Procuradoria-Geral da República de arquivar o caso (cabe à PGR,
legalmente, investigar os supostos delitos cometidos pela revista), exercer
abuso de poder e incorrer na suspeita de praticar outros crimes ─ um horror,
quando essa série de ações é cometida não por criminosos do PCC, mas por
ministros do Supremo Tribunal Federal deste país. Pior que tudo, a dupla
conseguiu exatamente o oposto do que pretendia com a sua blitz proibitória e
punitiva: a reportagem da Crusoé, que ambos quiseram deletar do mundo real, foi
reproduzida de forma massiva e incontrolável por centenas de órgãos de
comunicação, de todos os tamanhos e plataformas, espalhados pelo Brasil e mesmo
no exterior. Toffoli, que já carrega na testa a marca de repetente duas
vezes no concurso para juiz de direito, passou a carregar agora, também, o
lamentável apelido de “amigo do amigo do meu pai”. Não vai se livrar disso.
Os dois serão detidos dentro do próprio STF, que não
os deixará obter o que queriam. Sua tela está mostrando: “Perdeu, playboy“. Mas
conseguiram, sim, cometer um atentado de primeira grandeza contra as
instituições.

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