Por
J.R. Guzzo
Setembro de 2019
Deu
um nó. Está sempre dando, na política brasileira, porque é mesmo da natureza da
política produzir complicação, aqui e no resto do mundo. Mas desta vez parece
que se formou entre governo, Congresso, partidos e o resto da nebulosa que
compõe a vida pública brasileira um nó de escota duplo, ou um lais de guia
holandês, ou algum outro dos muitos enigmas criados pela ciência dos
marinheiros — desses que você olha, mexe, olha de novo, e não tem a menor ideia
de como desfazer.
É
fácil para os marinheiros — mas só para eles. Como, no presente momento, não há
ninguém com experiência prévia a respeito da desmontagem dos nós que apareceram
desde que Jair Bolsonaro formou o seu governo, o mundo político está com um
problema sério. Como se sabe, é a primeira vez na história recente do Brasil
que o time inteiro de cima foi montado sem ninguém pedir licença aos políticos,
ou sequer perguntar a sua opinião — e menos ainda comprar seu apoio com a
entrega de cargos na administração. Há muito técnico, muito general, etc. Mas
não há, como a ciência política considera indispensável, nada de “engenharia
política”. Isso quer dizer, na prática, que ficou difícil fazer a turma da
situação votar a favor do governo — pois a maior parte dela passa mal se tiver
de votar alguma coisa por princípio, ou seja, de graça. É esse o nó que não
desata. Por causa dele, dizem que o governo está “paralisado há 100 dias”.
Vejam,
para citar o exemplo mais indecente do momento, a reforma da Previdência. Nada
mais natural que o PT, seus auxiliares e o resto da esquerda fiquem contra. Têm
mesmo de ficar: a única escolha que faz sentido para a oposição, hoje, é ser
100% contra qualquer ideia que tenha a mínima chance de melhorar o Brasil em
alguma coisa. Isso seria, em seu raciocínio, ajudar o governo Bolsonaro a ser
bem-sucedido — e um governo Bolsonaro medianamente bem-sucedido é um desastre
mortal para o consórcio Lula-PT. Que futuro vai ter essa gente na vida, a não
ser que o governo acabe em naufrágio? Nenhum. É compreensível, assim, que a
oposição não aprove nada que possa dar certo. Mas PT, PSOL e PCdoB, somados,
não chegam a 15% da Câmara dos Deputados. E o resto: por que eles demoram tanto
para votar a reforma? Mesmo descontando outras facções antigoverno, daria para
aprovar. Resposta: demoram porque querem cargos na máquina e não estão levando.
É
isso: o sujeito quer uma diretoria, uma superintendência, uma vice-presidência
— uma boquinha gorda qualquer, Santo Deus — e não tem a quem pedir. Falam em
“agilização” das nomeações. Mas nomeação, que é bom, não sai. Chegou-se a falar
num “Banco de Talentos”, para onde a politicalha mandaria os nomes que quer
empregar — e onde as escolhas seriam feitas segundo “critérios técnicos”.
Também não rolou. Um deputado especialmente desesperado com a demora, Felipe
Francischini, chutou o balde e pediu um emprego na estatal Itaipu para a
própria madrasta. Outro, um Elmar Nascimento, do liberalíssimo DEM, disse que
não quer saber de “talentos”; quer emprego mesmo, e dos bons. “Não vamos nos
contentar só com marmita”, ameaçou ele. Histórias como essa encheriam a revista
inteira; não vale a pena ficar repetindo a mesma ladainha. O certo é que a
manada quer os empregos, não está conseguindo e, pior que tudo, não sabe com
quem falar para descolar a nomeação. Não adianta falar “no governo”, ou “no
palácio”. Tem de ser com o sujeito de carne e osso que manda assinar o raio do
papel que vai para o Diário Oficial. E quem é que chega até ele?
A
Caixa Econômica Federal, para dar um exemplo só, trocou todos os
vice-presidentes, 38 dos quarenta diretores e 75% dos 84 diretores regionais —
tudo propriedade privada dos políticos. Mais: quer cortar em dois anos 3,5
bilhões de reais em despesas como aluguéis ou “prestação de serviços”. Só na
Avenida Paulista, a CEF ocupa hoje sete prédios — nenhum outro banco do mundo
chegou perto disso, mesmo na época em que bancos tinham milhares de agências.
Em Brasília é pior: são quinze prédios, um deles só para tratar da admissão de
funcionários, como se a Caixa tivesse de admitir funcionários todos os dias.
Até uma criança de 10 anos sabe que mexer nisso é mexer diretamente no
interesse material dos políticos. Eles perderam esses cargos; querem todos de
volta, desesperadamente. Na CEF, no serviço contra as secas, nos portos, nos
aeroportos, nos armazéns de atacado, no Oiapoque e no Chuí.
Uma
coisa é pedir um negócio desses ao ministro Onyx Lorenzoni. Outra é pedir ao
general Santos Cruz.
Dá
para entender o nó, não é mesmo?

Nenhum comentário:
Postar um comentário