Um amigo de
infância, o Gustavo, casou com a menina mais linda do nosso bairro. Além da
aparência exuberante, era alegre, educada e atenciosa, o sonho de consumo de
todos nós. Ela tinha uma irmã mais nova e para muitos mais bonita, na época com
14 anos. Nas brincadeiras da nossa turma ele estava casando com a irmã errada,
mas a grande verdade é que todos estavam com muita inveja. Anos depois de
casado Gustavo acabou traçando a cunhada, a informação vazou e rapidamente acabou
chegando ao conhecimento da esposa. Ele foi confrontado e confessou tudo, o
casamento foi abalado e, tempos depois, as coisas se ajeitaram. Foi o assunto recorrente
em nossos encontros da turma por vários meses. Gustavo tentou se desculpar
dizendo que não tinha uma explicação, houve uma série de casualidades e simplesmente
aconteceu. Este fato é mais comum do que se imagina, fruto da rivalidade natural
entre belas irmãs.
Muitos anos
depois, cada vez que encontro o Gustavo tenho que disfarçar um sorriso
malicioso. Aconteceu há mais de 30 anos e a primeira ideia que me ocorre é: “Lá
vem o Gugu, o cara que comeu a cunhada”. É totalmente injusto, afinal seu crime,
se é que foi crime, não durou mais do que alguns minutos e ao que se saiba
nunca houve reincidência. Gustavo já
pagou pelo seu pecado e mesmo assim, trinta anos depois nós ainda o estamos
condenando. Pelas leis brasileiras, se tivesse assassinado alguém com requintes
de crueldade já teria sido preso, enfrentado um júri, cumprido pena e estaria
livre.
Esta é uma
das razões pela qual as antigas gerações criaram um codigo moral e uma ética,
uma religião, uma filosofia de vida transmitida às novas gerações para que elas
não façam bobagens que tenham que responder pelo resto de suas vidas.
Transgredir a moral e a ética de sua comunidade traz penas bem mais severas que
transgredir as leis do país.
Ter uma
religião e não seguir os seus preceitos, algo que ocorre com frequência, é o
pior dos dois mundos: não se procura uma ética melhor que satisfaça, nem se segue
a ética determinada pela religião.
Na semana
passada ligou um amigo de meu filho e anotei o recado:
- André, filho
do Gustavo, te ligou – avisei no almoço.
- Gustavo,
aquele que papou a cunhada? – meu filho respondeu com um sorriso malicioso.
Nos dias
atuais ninguém mais da nossa antiga turma tem inveja do Gustavo por ele ter
traçado as duas garotas mais lindas do bairro. Ele não somente pagou um preço
alto, este o preço vai ser pago agora por seus filhos, netos e talvez bisnetos.
Posso até imaginar daqui a trinta anos um comentário deste tipo:
- Não é o neto
do Gustavo, aquele que foi pego na cama com a cunhada?
As consequências
de um desvio ético podem ser muito mais severas que as leis impostas pelo
Estado, como descobriu meu amigo Gustavo, aquele que traçou a cunhada.
Adaptado por Carlos Alberto

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