sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Origem de expressões tupiniquins






Inês é morta

Inês de Castro (entre 1320 e 1325 a 7 de Janeiro de 1355), uma nobre castelhana, amante e possivelmente esposa do futuro rei Pedro I de Portugal, foi executada por ordem do seu pai, Afonso IV. Inês era filha ilegítima de Pedro Fernandes de Castro, um dos fidalgos mais poderosos de Castela.

Inês de Castro chegou a Portugal em 1340 integrada como aia no séquito de Constança Manuel, filha de João Manuel de Castela, um poderoso nobre descendente da Casa real Castelhana, que tinha o casamento negociado com o príncipe Pedro, herdeiro do trono Português. O príncipe apaixonou-se por Inês pouco tempo depois, negligenciando a mulher legítima, Constança, colocando em perigo as delicadas relações com Castela. Tentando separar Pedro e Inês, Constança a convida para ser madrinha do seu primeiro filho varão, o Infante Luís (1343), já que de acordo com os preceitos da Igreja Católica na época, a relação entre um dos padrinhos e um dos pais do afilhado era considerada incestuosa. A criança não durou um ano, frustrando o plano de fazer a Santa Sé a forçar a separação dos dois.

Sendo um romance adúltero conhecido, que Pedro fazia pouca questão de disfarçar, o rei Afonso IV (que havia promulgado diversas leis contra este tipo de situações) mandou exilar Inês no castelo de Albuquerque, na fronteira espanhola, em 1344. Entretanto a distância não apagou o amor entre os dois apaixonados, que continuaram a corresponder-se com frequência. Em outubro do ano seguinte, Constança morreu no parto do futuro Fernando I de Portugal, deixando Pedro viúvo e livre. Inês volta do exílio e os dois foram viver juntos longe da corte, tiveram quatro filhos: Afonso (morto em criança), João, Diniz e Beatriz.

Afonso IV tentou por diversas vezes, sem sucesso, organizar um terceiro casamento para o seu filho com uma princesa de sangue real, e esbarrou na intransigência de Pedro que só concebia casar com Inês. O velho Rei receava a influência da família da castelhana, os poderosos Castro, no seu filho e herdeiro, além disso o único filho varão de Pedro e Constança, Fernando, era uma criança frágil e crescia a insegurança em relação à sua vida e na possibilidade de um dos saudáveis filhos de Inês de Castro pudesse ocupar o trono. A nobreza portuguesa também começou a inquietar-se com a crescente influência castelhana sobre o futuro rei.

O rei Afonso IV optou por eliminar Inês. Em 1355 o rei cedeu às pressões dos seus conselheiros, aproveitando a ausência de Pedro em numa excursão de caça, enviou Pêro Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco para executar Inês. Os três encontraram Inês no Mosteiro de Santa Clara em Coimbra e a degolaram. Este fato teria originado a cor avermelhada das águas que correm no local, a Quinta das Lágrimas. A morte de Inês fez com que Pedro se revoltasse contra Afonso IV e provocou uma sangrenta guerra civil. A Rainha Beatriz interveio e após meses de luta e a paz foi selada em agosto de 1355.

Pedro tornou-se o oitavo rei de Portugal em 1357. Em Junho de 1360 faz a famosa declaração de Cantanhede, legitimando os filhos ao afirmar que se havia casado secretamente com Inês, em 1354 "em um dia que não se lembrava...". As palavras do rei e de seu capelão foram às únicas provas (?) deste casamento. Pedro perseguiu os assassinos de Inês, que tinham fugido para Castela. Pêro Coelho e Álvaro Gonçalves foram apanhados e executados (segundo a lenda. o rei assistiu às execuções, o Rei mandou arrancar a um o coração pelo peito e ao outro pelas costas). Diogo Lopes Pacheco conseguiu escapar para França, mais tarde foi perdoado pelo Rei no seu leito de morte.

Pedro mandou construir dois majestosos túmulos no mosteiro de Alcobaça, um para si e outro para onde trasladou os restos mortais de Inês. A tétrica cerimônia do beija mão, tão vívida no imaginário popular, provavelmente foi criada nas narrativas do final do século XVI, depois de Camões escrever em seu Canto III a tragédia de Inês, a “mísera e mesquinha, que depois de ser morta foi rainha”,  Pedro juntou-se a Inês em 1367, os restos de ambos jazem juntos até hoje, frente a frente, para que, segundo o plano de Pedro, "olhar-se nos olhos quando despertarem no dia do juízo final".

"Inês é morta" é uma expressão utilizada para caracterizar que não há mais nada que possa ser feito para corrigir uma situação. A frase é usada para expressar a inutilidade de certas ações. Muitas vezes é utilizada a expressão completa é "Agora é tarde, Inês é morta", indica que é tarde demais para tomar qualquer atitude a respeito de uma ocorrência.




Salvo pelo Gongo

Salvo pelo gongo é uma expressão utilizada quando situações de perigo ou constrangedoras estão prestes a acontecer e ocorre algo que impeça o fato. A sua origem é associada à Catalepsia, um distúrbio que impede o doente de se movimentar. Para evitar tragédias onde um doente cataléptico pudesse ser confundido com um defunto, famílias ricas na Europa amarravam uma cordinha no pulso de seus entes queridos e a prendiam a um sino fora do túmulo. Se a pessoa não estivesse morta, qualquer movimento faria o sino tocar e ela seria salva pelo gongo.



Nas Coxas


É uma expressão cunhada nos tempos da escravidão. Naquela época, quando não havia uma fôrma para fazer as telhas, que eram moldadas nas pernas dos escravos, mais propriamente nas suas coxas para dar o formato arredondado da telha. Como era natural, cada escravo tinha o seu porte físico específico, o que significava que as telhas nunca saíam iguais. Desta forma, e porque as telhas ficavam irregulares, os telhados muitas vezes ficavam desnivelados. Até os dias de hoje, quando alguém cumpre alguma tarefa sem capricho, sem primor, é dito que essa tarefa foi feita "nas coxas".



Rasgar Seda

Esta expressão legítima sempre foi sinônimo de elogios excessivos e surgiu pela primeira vez numa das comédias do dramaturgo Luís Carlos Martins Pena, o fundador do teatro de costumes no Brasil. Em uma das cenas da peça de teatro, um vendedor de tecidos vai à casa de uma moça e, se aproveitando da sua profissão, começa a cortejá-la, fazendo múltiplos elogios à sua beleza. O vendedor chega mesmo a oferecer algumas amostras "apenas pelo prazer de ser humilde escravo de uma pessoa tão bela". No entanto, a moça responde prontamente: "Não rasgue a seda, que desfia toda". Com estas palavras, a jovem quis dizer que os muitos elogios do vendedor poderiam ter exatamente o efeito contrário, e fazer com que ela perdesse o interesse.

Esse é o grande problema dos "rasgadores de seda", podem ganhar o rótulo de bajuladores, de pessoas que só fazem elogios na esperança de conseguir algum favor de outrem. A partir deste episódio ilustrado na peça de Luís Carlos Martins Pena, a expressão "rasgar seda" ganhou popularidade e é usada ainda hoje.



Mãos abanando

Há muitos anos atrás, na época da imigração no Brasil, os imigrantes utilizavam no trabalho diário suas próprias ferramentas e, quando andavam de "mãos abanando", era sinal de que não estavam dispostos a trabalhar. Uma ferramenta podia indicar uma profissão, uma habilidade e demostrava disposição para o trabalho, ao contrário, chegar de mãos abanando indicava preguiça.



Casa da mãe Joana

A expressão "casa da mãe Joana" teve origem no século XIV segundo Câmara Cascudo (historiador, antropólogo, advogado e jornalista). Esta expressão foi criada graças a Joana I, que viveu entre 1326 e 1382, foi rainha de Nápoles e condessa de Provença. Teve uma vida conturbada e em 1346 mudou sua residência para Avignon, na França. Alguns autores afirmam que esta mudança ocorreu porque Joana se envolveu em uma conspiração em Nápoles que acabou por resultar na morte de seu marido André, enquanto outros indicam que Joana foi exilada pela Igreja por ter uma vida desregrada e permissiva.

Em 1347, quando tinha 21 anos, Joana normatizou os bordéis da cidade onde vivia refugiada. Criou regras para impedir que alguns frequentadores agredissem as prostitutas e saíssem sem pagar. Para as meretrizes, Joana era como uma mãe e por isso os bordéis eram conhecidos como "casas da mãe Joana". Em Portugal, a expressão paço-da-mãe-joana era um sinónimo de prostíbulo. A expressão chegou alterada no Brasil porque "paço" não é uma palavra comum na linguagem popular, mudou para casa da mãe Joana para indicar um lugar permissivo, onde são exigidas poucas regras de comportamento. 



A cobra vai fumar

Surgiu no final de 1944, durante a Segunda Guerra Mundial. Quando se especulava se sobre a participação do país na guerra, os repórteres mais incrédulos diziam "É mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra". Quando o primeiro contingente da Força Expedicionária Brasileira (FEB), embarcou para a Itália, o povo começou a usar a expressão "A cobra vai fumar", no sentido de que o Brasil enfrentaria sérios problemas.

A expressão "A cobra vai fumar" indica que um objetivo é difícil de se realizar e, se acontecer, sérios problemas podem surgir.



Rodar à Baiana

Diferentemente do que possa parecer, essa expressão não tem sua origem relacionada à Bahia. A expressão foi criada no Rio de Janeiro, a região era palco no início do século 20 de famosos desfiles dos blocos de Carnaval, onde a ala das baianas era uma das principais atrações. Na confusão dos blocos, alguns rapazes mais afoitos aproveitavam para beliscar as meninas. Para prevenir estes problemas, alguns capoeiristas passaram a se fantasiar de baianas e ao primeiro sinal de desrespeito aplicavam um golpe de capoeira. As pessoas que assistiam aos desfiles não entendiam nada: só viam a baiana rodar.

Rodar a baiana é uma gíria brasileira que significa fazer confusão ou armar um escândalo no sentido de tomar uma satisfação com alguém, tirar a limpo uma situação.



Custar os Olhos da Cara

A expressão "custar os olhos da cara", tem origem em costumes antigos. Na Grécia, vários poetas eram cegos. O primeiro deles foi Tâmires, que em surto de imodéstia afirmou ser melhor cantor que as Musas, filhas de Zeus. As Musas zangaram-se e para aplacar a sua cólera o cegaram.

O próprio Homero, a quem se atribui a autoria dos poemas épicos Ilíada e Odisseia, era cego. Isso é mais que uma coincidência, havia um motivo definido para privar os poetas da visão, não eram as Musas da mitologia, mas os reis gregos que os cegavam. Esses reis tinham ciúme dos seus poetas e exigiam a sua lealdade arrancando seus olhos. Também era costume dos povos bárbaros cegar seus prisioneiros para limitar o seu poder de reação. Plauto, dramaturgo romano, que viveu durante o período republicano, se refere a essa expressão em uma de suas peças, “custava os olhos da cara ser poeta na Grécia antiga ou cair nas mãos dos bárbaros”.

Custar os olhos da cara é uma expressão que significa pagar um preço muito alto, muito acima da média esperada,



Tirar o cavalinho da Chuva

No século 19 e até o trem alcançar o seu grande nível de popularidade, o cavalo era o meio de transporte mais prático e comum, que apresentava muitas vantagens, uma delas era saber quanto tempo uma visita pretendia ficar em sua casa. Naquela época, guardar o cavalo (no estábulo, por exemplo) sem a autorização do dono da casa era uma falta de educação muito grave, e por isso normalmente as visitas deixavam o cavalo na parte da frente da casa. Em algumas ocasiões, quando o anfitrião estava contente com a presença do seu visitante e queria que este ficasse durante mais tempo, lhe dizia para "tirar o cavalo da chuva" e colocá-lo num lugar mais protegido. Ao dizer isso, o dono da casa estava indicando ao seu convidado para desistir da ideia de ir embora rápido. Com o passar do tempo, a expressão ganhou um sentido mais amplo, e significa desistir de um propósito qualquer. O cavalo ganhou também o diminutivo, que é uma marca de ironia na expressão.

Atualmente, tirar o cavalinho da chuva indica desistir de um objetivo, perder as ilusões, abandonar as pretensões.



Fazer uma vaquinha


A expressão "fazer uma vaquinha" surgiu na década de 20 graças ao futebol. Naquela época a profissionalização ainda não era geral e muitos times não remuneravam os seus jogadores, os que remuneravam com certeza não o faziam da mesma forma de hoje. Assim, em 1923, a torcida do Vasco da Gama, time do Rio de Janeiro, inventou uma forma de incentivar os seus jogadores, para que se esforçassem ainda mais nos jogos. A torcida juntava dinheiro e depois distribuía aos jogadores como prêmio, de acordo com o resultado obtido na partida.

O valor arrecadado estava relacionado com os números do jogo do bicho: 5, o número do cachorro, correspondia a 5 mil réis e era a recompensa por um empate; 10, número do coelho era equivalente a 10 mil réis que recompensava uma vitória; 25, o número da vaca, valia 25 mil réis e era o maior prêmio atribuído, somente no caso de vitória contra adversários mais fortes ou na conquista de algum título. Esse dinheiro que era coletado pela torcida, deu origem à famosa "vaquinha".

O tempo foi passando, e a expressão "fazer uma vaquinha" passou a ser usada por um conjunto de pessoas que se reúne para comprar alguma coisa ou para atingir um fim específico.

Conversa para Boi Dormir

A expressão "conversa para boi dormir" surgiu quando a pecuária era de suprema importância para a população local. O boi era dos animais mais importantes, dele era possível se aproveitar quase tudo, com a exceção do berro. Por este motivo, o boi tinha uma grande importância para os pecuaristas, que tratavam o animal quase como uma pessoa, e muitas vezes até conversavam com ele. Quando isto acontecia, normalmente o animal estava com movimentos restritos e não esboçava qualquer reação.

Conversa para boi dormir implica em perda de tempo, conversa mole, desculpa esfarrapada ou mentira contada com a intenção de enganar alguém.



Dar com os burros n’água

Conta-se que dois tropeiros receberam de uma pessoa a incumbência de transportar determinada carga para um certo lugar. O dono da mercadoria tinha pressa na entrega, mas considerando que qualquer dos caminhos que os condutores dos animais percorressem rumo ao seu destino era muito acidentado, deu a eles o direito de escolher a rota apropriada, prometendo-lhes um prêmio a quem chegasse mais depressa no destino.  Diante disso, e pensando na recompensa que poderiam receber pelo serviço, eles decidiram que o primeiro levaria a carga de algodão, porque era leve, mas volumosa, e o segundo, a carga de sal, que apesar de não ser muito grande, era pesada e difícil de ser transportada. E em seguida iniciaram a jornada, mas por caminhos diferentes.

Em determinado trecho do percurso os tropeiros tiveram que vadear o mesmo rio, e foi então que aconteceu o inesperado. Na pressa de vencer o obstáculo o primeiro conduziu os burros para a água, o algodão encharcou, seu peso ficou insuportável, a carga foi levada pela correnteza e o pobre homem só a muito custo conseguir salvar a própria vida. Noutro ponto, o segundo fez a mesma coisa: entrou com os animais na água, mas quando chegou na outra margem, o sal havia se dissolvido. Dessa forma, na ânsia de ganhar dinheiro os dois condutores deixaram de cumprir o que haviam tratado, dar com os burros n’água provocou não só a perda da carga com também a remuneração pelo serviço.

A expressão "dar com os burros n’água" é hoje utilizada quando se fala dos que fracassam ao realizar qualquer tarefa, são malsucedidos, ficam arruinados, falham no negócio.



Combinar com os russos

Copa do mundo na Suécia em 1958. Antes do jogo do Brasil com a Rússia (vitória 2x0), o técnico Vicente Feola orientava os jogadores no vestiário. Como a defesa do adversário era muito encorpada, o técnico explicava aos jogadores a estratégia para tentar evitar a força física dos russos, Garrincha devia reter a bola pela lateral do campo, para tirar a zaga do centro da área. Tão logo os zagueiros partissem em seu encalço, devia recuar a bola para Zito ou Didi, os homens do meio campo, que concentrariam os lançamentos para os atacantes no espaço aberto. Com 30 minutos do primeiro tempo já decorridos, Garrincha cumpria a função que fora instruído, porém com uma disciplina tática férrea, os zagueiros guardavam posição. Garrincha então aproximou-se da lateral do campo e reclamou com Feola: “Professor, tô fazendo tudo direitinho, mas os homens não vem atrás de mim, tem certeza que combinou com eles”? A tática de Feola não funcionou porque faltou combinar com os russos.

A expressão “faltou combinar com os russos” pode ser utilizada para caracterizar quando um comportamento ou resultado esperado não acontece.







Cruzar o Rubicão

O Rubicão é um pequeno curso de água no nordeste da península Itálica. O rio ficou conhecido porque o direito romano no tempo da república proibia qualquer general de atravessá-lo acompanhado de suas tropas quando retornassem das campanhas ao norte de Roma. A medida visava a impedir que os generais manobrassem grandes contingentes de tropas no núcleo do Império, evitando riscos à estabilidade do poder central. O curso d´água marcava a então a divisão entre a província Gália Cisplatina e o território da cidade de Roma.

Julio César com suas legiões atravessou o Rubicão em perseguição a Pompeu em 49 a.C., violando a lei e tornou inevitável um conflito armado em território romano. Conta a lenda que ao decidir atravessar o Rubicão, César teria então proferido a famosa frase “Alea jacta est (a sorte está lançada)".

A frase "atravessar o Rubicão" passou a ser usada para indicar uma decisão arriscada e irrevogável, sem volta.



São outros 500

No século XIII os fidalgos de linhagem na Península Ibérica podiam requerer indenização de qualquer injúria, sendo o agressor condenado a pagar 500 soldos ou ser preso. O agressor poderia incorrer na mesma pena caso voltasse a insultar a vítima. A legislação entendia que qualquer outra vilta, vitupério sem razão, posterior à multa cobrada, não seria incluída na primeira. Matéria para novo julgamento, outra culpa, outro dever. Seriam, evidentemente, outros quinhentos.

A expressão "outros quinhentos" significa "algo diferente", "outra história", "outro elemento" e é usada para enfatizar que, apesar de eventuais similaridades, os objetos da comparação são independentes.


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