Privacidade na Internet

Quando
em 1999 o CEO da SUN, Scott McNealy afirmou “You have no privacy anyway. Get
over it”[1] muitos entenderam o recado como muito pessimista. Hoje já não
tanto. Um vídeo produzido pela Federação Belga do Setor Financeiro (Febelfin)
em 2012 - Amazing mind reader reveals his 'gift' - disponível no YouTube, já assistido por mais
de meio milhão de pessoas, tem o sugestivo título de “Sua vida inteira é online
- e isto pode ser usado contra você".
O
roteiro é hilário e, ainda assim, aterrorizante. Um místico carismático, de
roupa exótica e cabelos brancos, faz a leitura da mente de alguns convidados:
"Eu vejo uma escola em Antuérpia"... "Uma casa para a
venda"... "O nome do seu melhor amigo é Julie"... "vida amorosa
interessante – vejo três? Quatro pessoas?". Ainda arrisca informações muito pessoais do
tipo "No mês passado, você gastou mais de US$ 120 em bebidas
alcoólicas”... “US$ 300 em roupas”... "Seu saldo no banco está
negativo"... Enquanto todos se espantam com os supostos poderes psíquicos
do místico, seu segredo é revelado: diversos computadores operados por hackers
alimentam o falso leitor de mentes em tempo real. O vídeo foi criado para
alertar as pessoas contra a disponibilização de quantidades excessivas de
informações privadas na rede e da facilidade com que esses dados podem ser
usados para entrar em endereços de e-mail, sites de comércio eletrônico e, finalmente, em
contas bancárias.
A
iniciativa da Federação Belga pode não ter atingido seus objetivos. As pessoas
continuam descuidadas com a divulgação de detalhes íntimos da sua vida privada,
ignorando a capacidade de empresas de mapear as suas preferências e das
entidades se interessam por tudo que é transmitido online.
Uma
forma didática de entender como o perfil de um usuário é garimpado na rede é
examinar os procedimentos utilizados pelo Google. A empresa utiliza uma
Política de Privacidade comum em seus produtos (com exceção do Chrome), com o
objetivo de unificar a coleta e armazenamento de dados de todos os usuários.
Desde então, os interesses revelados no site de buscas, por exemplo, são
portados para todos os outros produtos da empresa, sem opção de recusa.
O
que já é assustador no universo de computadores fica ainda mais crítico com os
smartphones. O Google não admite
explicitamente, mas está apto a contornar os controles de privacidade no
navegador Safari Web em dispositivos iOS - e, provavelmente no Edge também –
para capturar informações sobre as atividades online de usuários de dispositivos
Android.
Com
a crescente intromissão da pesquisa comercial na web, a indústria de
navegadores criou um sistema de auto regulação com características de “não
acompanhar", uma opção universal de não permitir o rastreamento de
informações e hábitos de navegação (opt-out). Consiste em um indicador no
cabeçalho HTTP que solicita para a aplicação web desabilitar o rastreamento de
sinais de um usuário. Atualmente é suportado pelas versões mais recentes do
Firefox, Safari, Opera e Edge (Microsoft), o Google Chrome é exceção.
Os
recursos de privacidade centrados unicamente em cookies e navegadores não são
uma solução abrangente. Introduzido quando a Apple Safari estreou
"navegação privada" em abril de 2005, os usuários habilitam a
navegação sem que seu histórico seja armazenado no equipamento local, mas não
evitam a ação de profissionais de marketing e anunciantes que capturam
informações quando são visitados da mesma forma que fariam em uma sessão
normal. Os cookies podem ser excluídos no final da sessão de navegação privada,
mas o usuário já foi individualizado por seu endereço IP.
Servidores
proxy anônimos também podem ser utilizados, não exclusivamente para
privacidade, mas para permitir pessoas acessar um conteúdo restrito a uma
localização geográfica específica.
Uma
aplicação com brilho crescente é o navegador Tor, uma ferramenta projetada para
facilitar a navegação anônima e impossibilitar o rastreamento na web. O Tor
funciona através de um sistema de "roteamento em camadas" (seu nome é
o acrônimo de The Onion Router – o roteador cebola). Adequadamente configurado,
ele oferece uma conexão criptografada entre todos os nós na rede Tor através
dos quais são realizadas sessões online. Na navegação Tor os dados transferidos
são criptografados e re-criptografados várias vezes na medida em que propagam
na rede. No entanto, a última transmissão de um servidor Tor para o equipamento
de destino, que em jargão de telefonia é chamado de “última milha” não é
criptografada, evidenciando um ponto fraco importante do sistema. A monitoração
dos dados de saída de um servidor Tor permite descobrir endereços IP, contas de
e-mail e senhas para dados sensíveis. Como qualquer equipamento pode participar
da rede Tor, os usuários talvez trafeguem por servidores de agências de
inteligência, grupos de hackers ou organizações criminosas.
Os
adeptos da Teoria da Conspiração conjeturam que o Tor foi deliberadamente
arquitetado para ser inseguro, embora sua origem seja o Laboratório de
Pesquisas da Marinha dos EUA e seja utilizado pelo Departamento de Estado dos
EUA. O Tor, por sua robustez, também é um paraíso para todos os tipos de
atividades ilegais e existem os paranóicos que argumentam que as agências
estatais - normalmente com base nos EUA – estão monopolizando a rede e toleram
seu uso indevido para acobertar suas próprias atividades nefastas.
O
conceito de privacidade é amplo e constantemente mal interpretado. Existe uma
expectativa social da privacidade do indivíduo, porém ela nunca é realmente
garantida. As câmeras públicas de vigilância são um exemplo clássico, não há
quem não defenda seu uso, porém um cidadão fica incomodado ao saber que todos
os seus passos são registrados, os momentos bons e os inconvenientes. A crença
equivocada de que nossa privacidade é garantida deixa as pessoas sestrosas
quando ela é violada, mesmo quando a informação revelada é relativamente
benigna ou inútil. Talvez eu não queira que as minhas fotos ou preferencias
pessoais sejam compartilhadas com o público em geral, mas qual exatamente o
problema se forem? No máximo uma pessoa
totalmente estranha ao meio acharia que eu sou um mau fotógrafo ou ficaria
entediada olhando gatos e pessoas anônimas em atividades comuns.
O
direito a privacidade, que consta na Declaração Universal dos Direitos Humanos
e na Constituição Federal, vetando interferências na vida particular de um
indivíduo sem seu consentimento, não aplica na web. Em princípio tudo que está
online deve ser considerado público. Se existem pensamentos, crenças, dados
pessoais ou outras informações que possam causar prejuízos ou constrangimentos
se divulgadas para terceiros em geral, a Internet não é lugar para circularem
ou serem armazenados. Existem soluções técnicas eficientes para manter a
privacidade na rede, porém exigem procedimentos e um tipo de conhecimento que
não pode ser completamente automatizado e ainda não acessível ao usuário comum.
A expectativa de privacidade ao usar recursos de comunicações compartilhados é
otimista e eventuais vazamentos não devem causar surpresa.
[1] Não existe mais privacidade. Acostume-se com a ideia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário