domingo, 17 de fevereiro de 2019

Porcos assados



A melhor solução para qualquer problema deve assumir a menor quantidade de premissas possível.

Princípio da Parcimônia.








Houve um incêndio em um bosque onde viviam porcos selvagens e alguns foram assados. Os homens, acostumados a comer carne crua, experimentaram e acharam a carne assada deliciosa, então passaram a incendiar um bosque sempre que queriam comer carne assada. Não era uma solução inteligente: às vezes os animais ficavam queimados demais, outras parcialmente crus. Entretanto a demanda por carne assada aumentou rapidamente e o processo preocupava porque quando falhava as perdas eram enormes, muita gente se alimentava de carne assada e também muitos se ocupavam com a tarefa de assá-la. O processo simplesmente não podia falhar, entretanto quanto maior a escala, maior o número de falhas com perdas enormes. Em razão dos inúmeros insucessos aumentava o clamor popular e havia a necessidade urgente de reformular profundamente o processo.

Congressos, seminários e conferências passaram a ser realizados para buscar soluções que nunca resultavam em melhorar o mecanismo. Assim, no evento seguinte repetiam-se os problemas e novos congressos, seminários e conferências eram realizados.

As causas dos fracassos foram diagnosticadas pelos especialistas como resultado de um variado leque de problema: indisciplina dos porcos que não permaneciam onde deveriam; inconstante natureza do fogo; árvores excessivamente verdes; umidade da terra; serviço de informações meteorológicas que não acertava o lugar, o momento e a quantidade das chuvas.

Os motivos nunca eram únicos e extremamente difíceis de determinar, a única certeza é que o processo de assar porcos era muito complexo.

Tudo evoluiu para uma grande estrutura: maquinário diversificado; incendiadores com tarefas específicas em provocar o incêndio (alguns altamente especializados, incendiadores da zona norte, da zona sul, da zona leste e da zona oeste; incendiadores noturnos ou diurnos, com especialização em matutino e vespertino – incendiador de inverno, de verão, etc.). Havia especialistas também em ventos – os anemotécnicos. Havia um Diretor Geral de Assados, um Diretor de Técnicas Ígneas (com seu conselho geral de assessores), um Administrador Geral de Reflorestamento, uma Comissão Nacional de Treinamento Profissional em Porcologia, um Instituto Superior de Cultura e Técnicas Alimentícias (ISCUTA) e o Bureau Orientador de Reformas Igneooperativas.

Havia sido projetada e encontrava-se em plena atividade a formação de novos bosques e selvas, de acordo com as mais recentes técnicas de implantação – utilizando-se regiões de baixa umidade e onde os ventos não sopram mais que três horas seguidas.

Havia milhares de pessoas trabalhando na preparação dos bosques que logo seriam incendiados. Havia especialistas estrangeiros estudando a importação das melhores árvores e sementes, fogo mais potente, etc. Havia grandes instalações para manter os porcos antes do incêndio, além de mecanismos para deixá-los sair apenas no momento certo.

Foram formados professores especializados na construção dessas instalações. Pesquisadores trabalhavam para as universidades que preparavam os profissionais especializados para estas funções; fundações apoiavam os pesquisadores que trabalhavam para as universidades, etc.

As soluções que os congressos sugeriam eram, por exemplo, aplicar triangularmente o fogo depois de atingida determinada velocidade do vento, soltar os porcos 15 minutos antes que o incêndio médio da floresta atingisse 47 graus, posicionar ventiladores gigantes em direção oposta à do vento, de forma a direcionar o fogo, etc. Todas as ideias eram lastreadas em extensas pesquisas e estudos diversos.

Um dia um especialista ígneo, categoria AB/SDM-VCH (ou seja, um acendedor de bosques especializado em sudoeste diurno, matutino, com bacharelado em verão chuvoso), chamado descobriu que o problema era muito fácil de ser resolvido. Bastava matar o porco escolhido, limpando e cortando adequadamente o animal, colocando-o então em uma armação metálica vazada sobre brasas, para  o efeito do calor – não as chamas – assar.

O Diretor Geral de Assados mandou chamá-lo ao seu gabinete, e, depois de ouvir pacientemente a sua explanação, respondeu da seguinte forma:

-    Tudo o que o Sr. falou disse está correto, mas inviável na prática. O que fariam, por exemplo, com os anemotécnicos, caso fossemos aplicar a sua teoria? Onde seria empregado todo o conhecimento dos acendedores de diversas especialidades?

-    Não sei, - respondeu o funcionário confuso.

-    E os especialistas em sementes? Em árvores importadas? E os projetistas de instalações para porcos, com suas máquinas purificadoras de ar?

-    Não pensei neste detalhe.

-    Vamos falar dos anemotécnicos, que levaram anos especializando-se no exterio e cuja formação custou tanto dinheiro ao país? Vou mandá-los limpar porquinhos? E os conferencistas e estudiosos, que ano após ano têm trabalhado nos Programas de Reformas e Melhoramentos? Que faço com eles se a sua solução resolver tudo?

-    Sinceramente não sei.

-    Percebe que a sua ideia não é adequada ao que necessitamos? O senhor não vê, que se tudo fosse tão simples, nossos especialistas já teriam encontrado a solução há muito tempo atrás? O senhor, com certeza, entende que eu não posso simplesmente convocar os anemotécnicos e dizer-lhes que tudo se resume a utilizar brasinhas, sem chamas! O que o senhor espera que eu faça com extensas áreas de bosques já preparados, cujas árvores não dão frutos nem têm folhas para dar sombra? Pensou nisso?

-    Não sei senhor.

-    Vamos mais, nossos engenheiros com pós-graduação em porcopirotecnia, o senhor não considera que sejam personalidades científicas do mais extraordinário valor?

-    Com certeza são.

-    Pois então, o simples fato de possuirmos valiosos engenheiros em porcopirotecnia indica que nosso processo é muito bom. O que eu faria com indivíduos tão importantes para o país?

-    Não sei.

-    Viu? O senhor tem que trazer soluções para problemas específicos – por exemplo: como melhorar as anemotécnicas atualmente utilizadas, como obter mais rapidamente acendedores do leste (nossa maior carência), como construir instalações para porcos com mais de sete andares. Temos que melhorar a eficiência do procedimento e não o transformar radicalmente, o senhor percebe? O que o Sr. propõe é insensato!

-    Realmente, estou perplexo! – Respondeu o funcionário.

-    Bem, agora que o senhor conhece as dimensões do problema, não saia por aí dizendo que pode resolver tudo. O problema é bem mais sério e complexo do que o senhor imagina. Agora, entre nós, devo recomendar-lhe que não insista nessa sua ideia – isso poderia prejudicar sua carreira. Não por mim, o senhor entende. Falo isso para o seu próprio bem, porque eu o compreendo, entendo perfeitamente o seu posicionamento, mas o senhor sabe que pode encontrar outro superior menos compreensivo, não é mesmo?

O funcionário, envergonhado com a sua falta da visão total do processo, não falou mais nada. Sem despedir-se, atordoado, saiu de fininho e voltou para o seu trabalho feliz por, ao menos, ter mantido o seu emprego.

A inércia para alterar procedimentos ineficientes que perduram por muito tempo é imensa. O sistema se protege contra mudanças que, por mais evidentes e necessárias que sejam, encontra reações pelos que são beneficiados.  

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