J.R. Guzzo
02/02/2018
Nada
é mais cômodo do que viver convencido de que certas coisas não podem ser
discutidas, pois são a verdade em estado definitivo. É o que está acontecendo
hoje com a questão ambiental pelo mundo afora — especialmente no Brasil.
Ficou
decidido pela opinião pública internacional e nacional que o Brasil destrói
cada vez mais as suas florestas — por culpa da agropecuária, é claro. Terra que
gera riqueza, renda e imposto é o inferno. Terra que não produz nada é o
paraíso. Fim de conversa.
Os
fatos mostram o contrário, mas e daí? Quanto menos fatos alguém tem a seu
favor, mais fortes ficam as suas opiniões.
Ninguém imagina, pelo que se vê e lê
todos os dias, que a área de matas preservadas no Brasil é mais do que o dobro
da média mundial. Nenhum país do mundo tem tantas florestas quanto o Brasil —
mais que a Rússia, que tem o dobro do seu tamanho, e mais que Canadá e Estados
Unidos juntos. Só o Parque Estadual da Serra do Mar, em São Paulo, é duas vezes
maior que a maior floresta primária da Europa, na Polônia.
Mais
que tudo isso, a agricultura brasileira ocupa apenas 10%, se tanto, de todo o
território nacional — e produz mais, hoje, do que produziu nos últimos 500
anos. Não cresce porque destrói a mata. Cresce por causa da tecnologia, da
irrigação, do maquinário de ponta. Cresce pela competência de quem trabalha
nela.
Como
a agricultura poderia estar ameaçando as florestas se a área que cultiva cobre
só 10% do país — ou tanto quanto as terras reservadas para os assentamentos da
reforma agrária? Mais: os produtores conservam dentro de suas propriedades, sem
nenhum subsídio do governo, áreas de vegetação nativa que equivalem a 20% da
superfície total do Brasil. Não faz nenhum sentido.
Não
se trata, aqui, de dados da "bancada ruralista" — foram levantados,
computados e atualizados pela Embrapa, com base no Cadastro Ambiental Rural,
durante o governo de Dilma. São mapas que resultam de fotos feitas por
satélite. São também obrigatórios — os donos não podem vender suas terras se
não estiverem com o mapeamento e o cadastro ambiental em ordem.
Do
resto do território, cerca de 20% ficam com a pecuária, e o que sobra não pode
ser tocado. Além das áreas de assentamentos, são parques e florestas sob
controle do poder público, terras indígenas, áreas privadas onde é proibido
desmatar etc. Resumo da ópera: mais de dois terços de toda a terra existente no
Brasil são "áreas de preservação".
O
fato, provado por fotografias, é que poucos países do mundo conseguem tirar
tanto da terra e interferir tão pouco na natureza ao redor dela quanto o
Brasil. Utilizando apenas um décimo do território, a agricultura brasileira de
hoje é provavelmente o maior sucesso jamais registrado na história econômica do
país.
A
última safra de grãos chegou a cerca de 240 milhões de toneladas — oito vezes
mais que os 30 milhões colhidos 45 anos atrás. Cada safra dá para alimentar
cinco vezes a população brasileira; nossa agricultura produz, em um ano só, o
suficiente para 1 bilhão de pessoas.
O
Brasil é hoje o maior exportador mundial de soja, açúcar, suco de laranja,
carne, frango e café. É o segundo maior em milho e está nas cinco primeiras
posições em diversos outros produtos.
O
cálculo do índice de inflação teve de ser mudado para refletir a queda no custo
da alimentação no orçamento familiar, resultado do aumento na produção. A
produtividade da soja brasileira é equivalente à dos Estados Unidos; são as
campeãs mundiais.
Mais
de 60% dos cereais brasileiros, graças a máquinas modernas e a tecnologias de
tratamento do solo, são cultivados atualmente pelo sistema de "plantio
direto", que reduz o uso de fertilizantes químicos, permite uma vasta
economia no consumo de óleo diesel e resulta no contrário do que nos acusam dia
e noite — diminui a emissão de carbono que causa tantas neuroses no Primeiro Mundo.
Tudo
isso parece uma solução, mas no Brasil é um problema. Os países ricos defendem
ferozmente seus agricultores. Mas acham, com o apoio das nossas classes
artísticas, intelectuais, ambientais etc., que aqui eles são bandidos.
A
consequência é que o brasileiro aprendeu a apanhar de graça. Veja-se o caso
recente do presidente Michel Temer — submeteu-se à humilhação de ouvir um pito
dado em público por uma primeira-ministra da Noruega, pela destruição das
florestas no Brasil, e não foi capaz de citar os fatos mencionados acima para
defender o país que preside. Não citou porque não sabia, como não sabem a
primeira-ministra e a imensa maioria dos próprios brasileiros. Ninguém, aí,
está interessado em informação.
Em
matéria de Amazônia, "sustentabilidade" e o mundo verde em geral,
prefere-se acreditar em Gisele Bündchen ou alguma artista de novela que não
saberia dizer a diferença entre o Rio Xingu e a Serra da Mantiqueira. É
automático. "Estrangeiro bateu no Brasil, nesse negócio de ecologia? Só
pode ter razão."
Nada
explica melhor esse estado de desordem mental do que a organização “Farms Here, Forests There” (fazendas
aqui, florestas lá) atualmente um dos mais ativos e poderosos lobbies na defesa
dos interesses da agricultura americana. Não tiveram nem a preocupação de
adotar um nome menos agressivo — e não parecem preocupados em dar alguma
coerência à sua missão de defender “Fazendas aqui, florestas lá”.
Sustentam
com dinheiro e influência política os Green Peace deste mundo, inclusive no
Brasil. Seu objetivo é claro. A agropecuária deve ser atividade privativa dos
países ricos — ou então dos mais miseráveis, que jamais lhes farão concorrência
e devem ser estimulados a manter uma agricultura “familiar” ou de subsistência,
com dois pés de mandioca e uma bananeira, como querem os bispos da CNBB e os
inimigos do “agronegócio”.
Fundões
como o Brasil não têm direito a criar progresso na terra. Devem limitar-se a
ter florestas, não disputar mercados e não perturbar a tranquilidade moral das
nações civilizadas, ecológicas e sustentáveis. E os brasileiros — vão comer o
quê? Talvez estejam nos aconselhando, como Maria Antonieta na lenda dos
brioches: “Comam açaí”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário