Então, numa
daquelas partidas contra um time sem expressão em que o Santos sempre se
empanturrava de fazer gols, a máquina emperra. O tempo vai passando, passando,
e o placar teima em não sair do zero. Aquele pontinho perdido não estava nos
planos e poderia ser desastroso, Lula, o técnico do Santos, estava ficando cada
vez mais aflito. Até que, faltando 15 minutos para o fim do jogo, ele cansa de
esperar que seus craques resolvam a situação por conta própria e decide tomar
uma providência gerencial. Olha para o banco de reservas e chama o atacante
Pitico.
- Pitico, chega mais. É o seguinte. O Pelé ficou muito
isolado ali na frente. Vai lá e encosta nele, para a gente ter mais opção de
ataque.
- Falou seu Lula.
- Além disso, nosso meio-de-campo já está no maior bagaço.
Você volta um pouquinho quando a gente estiver sem a bola, para ajudar na
armação.
- Certinho, seu Lula.
- Só mais uma coisa. O ponta-esquerda deles já matou o
Carlos Alberto de tanto correr. Quando eles saírem jogando, você cai ali pela
direita e fecha o espaço. Alguma dúvida?
- Só uma, seu Lula. Se o senhor acha que eu sou mesmo capaz
de fazer tudo isso, por que eu fiquei no banco até agora?
Lembrei-me
dessa história na semana passada, quando vi um anúncio de emprego. A vaga era
de gestor de atendimento interno, nome que agora se dá à seção de serviços
gerais. E a empresa contratante exigia que os eventuais interessados possuíssem
sem contar a formação superior, liderança, criatividade, energia, ambição,
conhecimentos de informática, fluência em inglês e, não bastasse tudo isso,
ainda fossem “hands on”. Para o
felizardo que conseguisse convencer o entrevistador de que possuía mesmo essa variada
gama de habilidades, o salário era um assombro: 980 reais. Queriam contratar um
Pitico.
Não que
esse fosse algum exemplo absolutamente fora da realidade. Pelo contrário, ele é
quase o paradigma dos anúncios de emprego atuais. A abundância de candidatos
está permitindo que as empresas levantem, cada vez mais, a altura da barra que
o postulante terá de saltar para ser admitido. E muitos, de fato, saltam. E se
empolgam. E aí vêm as agruras da super qualificação, que é uma espécie do lado
avesso do efeito Pitico.
Vamos supor
que, após uma duríssima competição com outros candidatos tão bem preparados
quanto ela, a Fabiana conseguisse ser admitida como gestora de atendimento
interno. E um de seus primeiros clientes fosse o Sr. Borges, gerente da
contabilidade.
- Fabiana, eu quero três cópias deste relatório.
- In a hurry!
- Saúde.
- Não, isso quer dizer "bem rapidinho". É que eu
tenho fluência em inglês. Aliás, desculpe perguntar, mas por que a empresa
exige fluência em inglês se aqui só se fala português?
- E eu sei lá? Dá para você tirar logo as cópias?
- O senhor não prefere que eu digitalize o relatório?
Porque eu tenho profundos conhecimentos de informática.
- Não, não. Cópias normais mesmo.
- Certo. Mas eu não poderia deixar de mencionar minha
criatividade. Eu já comecei a desenvolver um projeto pessoal visando eliminar
30% das cópias que tiramos.
- Fabiana, desse jeito não vai dar!
- E eu não sei? Preciso urgentemente de uma auxiliar.
- Como assim?
- É que eu sou líder, e não tenho ninguém para liderar. E
considero isso um desperdício do meu potencial energético.
- Olha, neste momento, eu só preciso das três có...
- Com certeza. Mas antes vamos discutir meu futuro...
- Futuro? Que futuro?
- É que eu sou ambiciosa. Já faz dois dias que eu estou
aqui e ainda não aconteceu nada.
- Fabiana, eu estou aqui há 18 anos e também não me aconteceu
nada!
- Sei. Mas o senhor é “hands on”?
- Hã?
- “Hands on”. Mão na massa.
- Claro que sou!
- Então o senhor mesmo tira as cópias. E agora com licença
que eu vou sair por aí explorando minhas potencialidades. Foi o que me
prometeram quando eu fui contratada.
Então, o
mercado de trabalho está ficando dividido em duas facções. Uma, cada vez maior,
é a dos que não conseguem boas vagas porque não têm as qualificações
requeridas. E o outro grupo, pequeno, mas crescente, é o dos que são admitidos
porque possuem todas as competências exigidas onde não são necessárias.
Alguém deve
ponderar - com justa razão - que a empresa está de olho no longo prazo: sendo
portador de tantos talentos, o funcionário poderá ser preparado para assumir
responsabilidades cada vez maiores. Em uma empresa em que trabalhei na década
passada caímos nessa armadilha. Admitimos um montão de gente superqualificada e
as conversas ficaram de tão alto nível que um visitante desavisado que chegasse
de repente confundiria nossa salinha do café com o auditório da Fundação Alfred
Nobel. Até que um dia um grupo de marketing e finanças foi visitar uma de
nossas fábricas. E, no meio da estrada, o veículo da empresa pifou. Como isso
foi antes do advento do milagre do celular, o jeito era confiar no
especialista, Cleto, o motorista. E aí todos descobriram que o Cleto falava
inglês, tinha noções de informática e possuía energia e criatividade, sem mencionar
que estava fazendo pós-graduação. Só que não sabia nem abrir o capô. Duas horas
depois, quando o pessoal ainda estava tentando entender o manual do
proprietário, passou um sujeito de bicicleta. Para horror de todos, ele falava
"nóis vai" e coisas do
gênero. Em 2 minutos, para espanto geral, não só descobriu o defeito como botou
o veiculo para funcionar. Deram-lhe uns trocados, e ele foi embora feliz da
vida.
Aquele
ciclista anônimo era o protótipo do funcionário para quem as empresas modernas
torcem o nariz, uma espécie de Pitico contemporâneo. O que é capaz de resolver,
mas não de impressionar.

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