Anos atrás a Folha de São Paulo veiculou um comercial
fantástico. Uma câmara se afastava lentamente de uma foto, inicialmente
mostrando apenas uns poucos pontos que a compunham, até formar a imagem final.
Durante o processo o locutor anunciava as realizações da pessoa retratada:
assumiu uma nação destruída e endividada logo após a primeira Guerra Mundial,
recuperou sua economia e devolveu o orgulho a seu povo. Nos primeiros quatro
anos de seu governo o número de desempregados caiu de 4 milhões para 900 mil, o
produto bruto interno bruto cresceu mais de 100% e a renda per capita mais que
dobrou. Aumentou o lucro das empresas de 175 milhões para 5 bilhões de marcos e
reduziu uma hiperinflação a um máximo de 25% ao ano. O homem adorava música e
pintura, quando jovem imaginava seguir a carreira artística. Quando a câmara se
afasta totalmente mostra a figura de Adolph Hitler. O objetivo do comercial era
mostrar que é possível contar uma enorme mentira dizendo só a verdade.
Conheci Danielle a uns quinze dias atrás, resultado de uma
pesquisa na Internet. Em seu anúncio na ela prometia ser a solução para todos
os meus problemas. Nosso primeiro encontro foi formal, quase burocrático.
Conversamos sobre quais as suas aptidões e Danielle reiterou que, embora no
limite de idade aceitável, Marcos e Paulo Sérgio Valle ensinam que não se deve
confiar em ninguém com mais de 30, tinha competência e experiência suficientes
para atender a todas as minhas expectativas. Ela irradiava simpatia, seu trabalho
tinha um custo aceitável e agendamos de imediato um segundo encontro para a
tarde de um sábado, ela prometeu que eu mudaria completamente o modo de ver a
vida.
Sempre tive um pouco de receio ao procurar profissionais como
Danielle, entretanto ansioso para ver o trabalho dela fui pontual, cheguei no
horário. Ela atrasou um pouco porque, junto com uma parceira estava atendendo a
um outro cliente. Quando finalmente nos encontramos, fui acomodado em um módulo
confortável semelhante a uma cadeira ergométrica e por quase duas horas fui muito
bem atendido pelas duas. Seguramente não era a primeira vez que prestavam
serviços juntas, mostraram completa sincronia e sabiam dividir as tarefas. A
companheira de Danielle, Paola, logo assumiu o protagonismo, a postura de
menina malvada da dupla e disponibilizou sobre uma pequena plataforma um
conjunto de instrumentos de tortura. Danielle optou por uma atuação discreta,
um recurso auxiliar, encarregou-se de providenciar uma iluminação adequada e
atender às solicitações de Paola. Paola era uma sádica metódica, eficiente,
cuidadosa e perguntava constantemente se eu estava experimentando algum
desconforto ou dor enquanto manipulava seus instrumentos. Tudo nela era
estudado, falava sempre em tom moderado para transmitir confiança. Em um
momento um excesso de atrito me incomodou e ela prontamente controlou com uma
generosa dose de vaselina.
Depois de quase duas horas me submetendo aos caprichos das duas,
Danielle considerou que ambas já tinha feito o suficiente e fui dispensado, não
sem antes marcar um retorno em uma semana ou dez dias. Provavelmente a sádica
não esteja presente, acredito que suas habilidades de torturadora não sejam
mais necessárias. É uma pena porque gostei de conhecê-la e seria legal ser seu
amigo, vou sentir falta da sua atenção. Entretanto tenho a certeza que a
destreza e competência de Danielle são suficientes para um resultado final
satisfatório.
As doutoras Danielle Pelegrine (CRO-RS 19561) e Paola Sartori (CRO-RS
24614) são odontólogas, Paola é especialista em exodontia, um termo elegante que
descreve um tipo de tortura executado por profissionais cuja principal
atividade é “tirar dentes”. Danielle foi contratada para recriar o meu sorriso,
ela está convencida que pode fazer um bom trabalho com excelentes resultados.
Eu acredito.
Dra, Danielle & Dra. Paola


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