sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

É possível criar uma mentira falando só verdades




Anos atrás a Folha de São Paulo veiculou um comercial fantástico. Uma câmara se afastava lentamente de uma foto, inicialmente mostrando apenas uns poucos pontos que a compunham, até formar a imagem final. Durante o processo o locutor anunciava as realizações da pessoa retratada: assumiu uma nação destruída e endividada logo após a primeira Guerra Mundial, recuperou sua economia e devolveu o orgulho a seu povo. Nos primeiros quatro anos de seu governo o número de desempregados caiu de 4 milhões para 900 mil, o produto bruto interno bruto cresceu mais de 100% e a renda per capita mais que dobrou. Aumentou o lucro das empresas de 175 milhões para 5 bilhões de marcos e reduziu uma hiperinflação a um máximo de 25% ao ano. O homem adorava música e pintura, quando jovem imaginava seguir a carreira artística. Quando a câmara se afasta totalmente mostra a figura de Adolph Hitler. O objetivo do comercial era mostrar que é possível contar uma enorme mentira dizendo só a verdade.


Conheci Danielle a uns quinze dias atrás, resultado de uma pesquisa na Internet. Em seu anúncio na ela prometia ser a solução para todos os meus problemas. Nosso primeiro encontro foi formal, quase burocrático. Conversamos sobre quais as suas aptidões e Danielle reiterou que, embora no limite de idade aceitável, Marcos e Paulo Sérgio Valle ensinam que não se deve confiar em ninguém com mais de 30, tinha competência e experiência suficientes para atender a todas as minhas expectativas. Ela irradiava simpatia, seu trabalho tinha um custo aceitável e agendamos de imediato um segundo encontro para a tarde de um sábado, ela prometeu que eu mudaria completamente o modo de ver a vida. 


Sempre tive um pouco de receio ao procurar profissionais como Danielle, entretanto ansioso para ver o trabalho dela fui pontual, cheguei no horário. Ela atrasou um pouco porque, junto com uma parceira estava atendendo a um outro cliente. Quando finalmente nos encontramos, fui acomodado em um módulo confortável semelhante a uma cadeira ergométrica e por quase duas horas fui muito bem atendido pelas duas. Seguramente não era a primeira vez que prestavam serviços juntas, mostraram completa sincronia e sabiam dividir as tarefas. A companheira de Danielle, Paola, logo assumiu o protagonismo, a postura de menina malvada da dupla e disponibilizou sobre uma pequena plataforma um conjunto de instrumentos de tortura. Danielle optou por uma atuação discreta, um recurso auxiliar, encarregou-se de providenciar uma iluminação adequada e atender às solicitações de Paola. Paola era uma sádica metódica, eficiente, cuidadosa e perguntava constantemente se eu estava experimentando algum desconforto ou dor enquanto manipulava seus instrumentos. Tudo nela era estudado, falava sempre em tom moderado para transmitir confiança. Em um momento um excesso de atrito me incomodou e ela prontamente controlou com uma generosa dose de vaselina.


Depois de quase duas horas me submetendo aos caprichos das duas, Danielle considerou que ambas já tinha feito o suficiente e fui dispensado, não sem antes marcar um retorno em uma semana ou dez dias. Provavelmente a sádica não esteja presente, acredito que suas habilidades de torturadora não sejam mais necessárias. É uma pena porque gostei de conhecê-la e seria legal ser seu amigo, vou sentir falta da sua atenção. Entretanto tenho a certeza que a destreza e competência de Danielle são suficientes para um resultado final satisfatório. 


As doutoras Danielle Pelegrine (CRO-RS 19561) e Paola Sartori (CRO-RS 24614) são odontólogas, Paola é especialista em exodontia, um termo elegante que descreve um tipo de tortura executado por profissionais cuja principal atividade é “tirar dentes”. Danielle foi contratada para recriar o meu sorriso, ela está convencida que pode fazer um bom trabalho com excelentes resultados. Eu acredito.





Dra, Danielle & Dra. Paola


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