sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Crime digital



Perplexidade era o termo que melhor definia o conjunto de ideias do Del. Andrade em relação a este caso. Desde que assumira a terceira delegacia de crimes digitais, em São Paulo, era o mais desconcertante. A sequência dos acontecimentos nada tinha de original, Andréa, uma moça de uma família estruturada, o pai um conceituado advogado, linda, com um biótipo escandinavo, provavelmente fragilizada por drogas ou excesso de álcool, participou de uma aventura sexual com dois rapazes em um local qualquer e o encontro foi registrado em diversas fotos. As imagens em nada ficam a dever quando comparadas com as melhores produções de pornografia explícita contida em revistas do ramo, mostravam um nível de degradação e submissão incompatíveis com a formação e histórico da menina. Óbvio, as fotos vazaram em seu ambiente acadêmico e podiam ser encontradas armazenadas em nove de cada dez smartphones dos alunos da universidade.

Na entidade educacional, administrada por uma congregação religiosa, a garota foi suspensa tão logo a distribuição do material tomou corpo. A instituição registrou um BO para justificar uma medida administrativa mais severa e decidiu, dias depois, pelo afastamento em definitivo da aluna, alegando desvio de conduta e incompatibilidade com os princípios morais da instituição.

Embora o tipo de ocorrência seja comum, normalmente fruto da inveja de colegas ou vingança de um parceiro rejeitado, este foi um caso atípico desde o início. A investigação seguiu a praxe policial, procurar descobrir o que, quem, onde, quando, porque e como, tendo como referência o objeto da investigação, no caso as imagens. A perícia indicou que, embora a ausência de metadados e a baixa resolução prejudicassem uma análise mais consistente, a possibilidade de serem resultado de uma fraude podia ser descartada. Sombras, reflexos, posicionamentos de mobília, continuidade de cores, nada sugeria um mínimo indício de manipulação das imagens. Os rapazes participantes do evento não portavam tatuagens, cicatrizes ou outros sinais característicos, não havia nas imagens algo que permitisse a sua identificação e não foram reconhecidos por colegas de faculdade, estágio, familiares e amigos. O ambiente físico onde os fatos ocorreram indicava um quarto residencial comum, cujo acabamento não tinha o requinte de um motel ou hotel. Um perito-médico forense analisou ampliações de detalhes do rosto da garota nas fotos e não encontrou indicativos de descontrole ou sonolência, quando aconteceu a menina estava lúcida, não escondeu o rosto da câmera e os seus olhos não estavam congestionados, descartando a possibilidade de estar drogada. Embora algumas imagens ilustrassem situações absolutamente desconfortáveis, inclusive com dupla penetração, ela aparentava tranquilidade, parecia estar ciente, participante e de acordo com tudo. O enquadramento das imagens sugeria a presença de uma quarta pessoa no ambiente, embora o mesmo resultado poderia ser obtido com o uso de um tripé.

Em duas semanas de investigações o resultado era pífio, nenhuma evidência foi obtida, faltava determinar quase tudo e a principal razão era espantosa, a garota se recusava a colaborar. Mais ainda, negava peremptoriamente ser ela nas imagens. A não identificação dos parceiros e do local podia ser explicada por um evento oportunista, com pessoas sem relação com a vítima, portanto não era muito significativo, mas esclarecer o autor das fotos, quem postou na Internet e porque eram imprescindíveis para a conclusão do inquérito. O Del. Andrade usou toda a sua experiência em interrogatórios sem resultado. Tentou ameaças, cumplicidade, ponderações, apelou por sentimentos pela família, religião, respeito aos colegas e amigos e não conseguiu nenhum avanço nas investigações. Apesar de todas as evidências, a menina não mudou uma vírgula do seu depoimento inicial. Sem uma ideia do quando, exames médicos eram irrelevantes e, depois de esgotar os recursos de investigação da delegacia, que incluíram interrogadoras femininas, psiquiatras e psicólogos forenses, 30 dias após a abertura do inquérito decidiu por seu arquivamento.

Não há nada que incomode mais que a sensação de um trabalho mal concluído e o Del. Andrade não ficou nada confortável com este caso. O sorriso natural da menina nas fotos contrastava com sua imensa tristeza durante os interrogatórios e a sua obstinação em negar o óbvio era incompreensível. O delegado buscou todas as fontes que pudessem ajudar de alguma forma ao menos compreender o que passava na cabeça da menina, com resultados presumivelmente infrutíferos. Desencantado, 63 dias depois de encerrado o inquérito ligou para a família da moça para ver se houve algum progresso e ficou ainda mais deprimido, o pai reportou que como Andréa recusou todas as tentativas de ressocialização apegando-se de modo doentio em não assumir sua culpa, a afastou do convívio familiar, segregando-a a fazer companhia a uma avó em uma cidade do interior. Fazia mais de um mês que não tinha contato com a filha.

Foi quando o Del. Andrade lembrou de um evento que participou e da palestra de um especialista em imagens digitais, o Prof. Carlos Alberto. Como última tentativa, coletou e remeteu as imagens para o palestrante, acompanhadas de uma breve explicação do ocorrido e da falta de resultados. A esperança era que, talvez, o Prof. Carlos Alberto pudesse descobrir algum tipo de fraude não identificada pelos peritos oficiais. Isto feito, considerou sua participação no episódio encerrada e seguiu a vida.

Quase cinco meses depois do registro do BO, o Del. Andrade recebeu um e-mail alentador, o anexo continha as seis imagens que constavam na investigação, outras dezenove do mesmo evento, também indicou um estúdio fotográfico em Oslo, Noruega, como proprietário do lote e relacionou o nome do fotógrafo, dos participantes e o nome da revista que encomendou e publicou o ensaio. Andréa sempre esteve certa, embora houvesse uma semelhança espantosa, não era ela. O Prof. Carlos Alberto explicou que repassou as imagens para uma organização mantida sem fins lucrativos pela Igreja Ortodoxa em Israel que, utilizando ferramentas avançadas de buscas na internet, identificaram a origem. Imediatamente o processo foi reaberto mudando o foco, o escopo passou a ser descobrir quem foi o autor da divulgação e porque que veiculou as fotos como se fossem da garota. 

A vida de Andréa mudou. Dos quase sete meses que se passaram entre o aparecimento das imagens e a descoberta da fraude restaram a decepção com seus pais, a mágoa pelas amizades unilateralmente interrompidas e o desencanto com seu então namorado. Ela foi convidada a retomar seus estudos, porém a simples hipótese que um de seus colegas pudesse ser o autor da maldade a fez optar por uma bolsa em outra instituição de ensino. Nunca aceitou participar de circos armados pela mídia para divulgar a sua história e desenvolveu uma profunda desconfiança nas pessoas de seu entorno. Quando todos os que conviveu nos vinte e dois anos de sua vida, pais, familiares, vizinhos, colegas, amigos e até seu namorado se convenceram que ela era promíscua, dois estranhos acreditaram nela. A motivação do Del. Andrade era compreensível, caso encerrado não é sinônimo de caso resolvido. Quanto ao Prof. Carlos Alberto, o simples fato de investir uma parcela de seu tempo em um caso onde todos os indícios apontavam para uma condenação e só a palavra de uma desconhecida indicava o contrário, só podia ser justificado pela crença nas pessoas e pela busca da verdade. 

Andréa continua residindo no interior paulista com sua avó e, embora já não evite, também não procura o convívio com seus pais. Recusou polidamente as poucas tentativas reaproximação das velhas amizades e rejeitou todas as tentativas de contato com o antigo namorado. As múltiplas seções de terapia ainda não devolveram a ela a plena confiança nos bons propósitos das pessoas.

Recebeu duas visitas do Del. Andrade, ainda não encontrou uma oportunidade para conhecer pessoalmente o Prof. Carlos Alberto. Andrea conseguiu com o Del. Andrade seu telefone e conversou brevemente com ele, ficou emocionada ao ouvir a voz de uma das duas únicas pessoas que acreditaram nela quando todos que a conheciam desde sempre estavam convencidos de sua culpa. Soube por sua avó que ele recusou uma recompensa financeira de seu pai, o que aumentou ainda mais a sua admiração. Ela reorientou a sua vida, abandonou o curso de direto e está matriculada em uma graduação em Tecnologia da Informação, quer se especializar em fraudes digitais. Também está decidida a ir até Porto Alegre com o único propósito de dar um abraço na pessoa que, mesmo sem nunca a ter encontrado antes, se importou com ela mais que sua própria família.

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