Perplexidade era o termo que
melhor definia o conjunto de ideias do Del. Andrade em relação a este caso. Desde
que assumira a terceira delegacia de crimes digitais, em São Paulo, era o mais
desconcertante. A sequência dos acontecimentos nada tinha de original, Andréa, uma
moça de uma família estruturada, o pai um conceituado advogado, linda, com um
biótipo escandinavo, provavelmente fragilizada por drogas ou excesso de álcool,
participou de uma aventura sexual com dois rapazes em um local qualquer e o
encontro foi registrado em diversas fotos. As imagens em nada ficam a dever quando
comparadas com as melhores produções de pornografia explícita contida em
revistas do ramo, mostravam um nível de degradação e submissão incompatíveis
com a formação e histórico da menina. Óbvio, as fotos vazaram em seu ambiente
acadêmico e podiam ser encontradas armazenadas em nove de cada dez smartphones
dos alunos da universidade.
Na entidade educacional, administrada
por uma congregação religiosa, a garota foi suspensa tão logo a distribuição do
material tomou corpo. A instituição registrou um BO para justificar uma medida
administrativa mais severa e decidiu, dias depois, pelo afastamento em definitivo
da aluna, alegando desvio de conduta e incompatibilidade com os princípios
morais da instituição.
Embora o tipo de ocorrência
seja comum, normalmente fruto da inveja de colegas ou vingança de um parceiro
rejeitado, este foi um caso atípico desde o início. A investigação seguiu a
praxe policial, procurar descobrir o que, quem, onde, quando, porque e como,
tendo como referência o objeto da investigação, no caso as imagens. A perícia
indicou que, embora a ausência de metadados e a baixa resolução prejudicassem uma
análise mais consistente, a possibilidade de serem resultado de uma fraude podia
ser descartada. Sombras, reflexos, posicionamentos de mobília, continuidade de
cores, nada sugeria um mínimo indício de manipulação das imagens. Os rapazes
participantes do evento não portavam tatuagens, cicatrizes ou outros sinais
característicos, não havia nas imagens algo que permitisse a sua identificação e
não foram reconhecidos por colegas de faculdade, estágio, familiares e amigos.
O ambiente físico onde os fatos ocorreram indicava um quarto residencial comum,
cujo acabamento não tinha o requinte de um motel ou hotel. Um perito-médico
forense analisou ampliações de detalhes do rosto da garota nas fotos e não
encontrou indicativos de descontrole ou sonolência, quando aconteceu a menina
estava lúcida, não escondeu o rosto da câmera e os seus olhos não estavam
congestionados, descartando a possibilidade de estar drogada. Embora algumas imagens
ilustrassem situações absolutamente desconfortáveis, inclusive com dupla
penetração, ela aparentava tranquilidade, parecia estar ciente, participante e
de acordo com tudo. O enquadramento das imagens sugeria a presença de uma
quarta pessoa no ambiente, embora o mesmo resultado poderia ser obtido com o
uso de um tripé.
Em duas semanas de
investigações o resultado era pífio, nenhuma evidência foi obtida, faltava
determinar quase tudo e a principal razão era espantosa, a garota se recusava a
colaborar. Mais ainda, negava peremptoriamente ser ela nas imagens. A não
identificação dos parceiros e do local podia ser explicada por um evento
oportunista, com pessoas sem relação com a vítima, portanto não era muito significativo,
mas esclarecer o autor das fotos, quem postou na Internet e porque eram
imprescindíveis para a conclusão do inquérito. O Del. Andrade usou toda a sua
experiência em interrogatórios sem resultado. Tentou ameaças, cumplicidade,
ponderações, apelou por sentimentos pela família, religião, respeito aos
colegas e amigos e não conseguiu nenhum avanço nas investigações. Apesar de
todas as evidências, a menina não mudou uma vírgula do seu depoimento inicial.
Sem uma ideia do quando, exames médicos eram irrelevantes e, depois de esgotar
os recursos de investigação da delegacia, que incluíram interrogadoras
femininas, psiquiatras e psicólogos forenses, 30 dias após a abertura do
inquérito decidiu por seu arquivamento.
Não há nada que incomode
mais que a sensação de um trabalho mal concluído e o Del. Andrade não ficou nada
confortável com este caso. O sorriso natural da menina nas fotos contrastava
com sua imensa tristeza durante os interrogatórios e a sua obstinação em negar
o óbvio era incompreensível. O delegado buscou todas as fontes que pudessem
ajudar de alguma forma ao menos compreender o que passava na cabeça da menina,
com resultados presumivelmente infrutíferos. Desencantado, 63 dias depois de
encerrado o inquérito ligou para a família da moça para ver se houve algum
progresso e ficou ainda mais deprimido, o pai reportou que como Andréa recusou
todas as tentativas de ressocialização apegando-se de modo doentio em não
assumir sua culpa, a afastou do convívio familiar, segregando-a a fazer
companhia a uma avó em uma cidade do interior. Fazia mais de um mês que não
tinha contato com a filha.
Foi quando o Del. Andrade
lembrou de um evento que participou e da palestra de um especialista em imagens
digitais, o Prof. Carlos Alberto. Como última tentativa, coletou e remeteu as
imagens para o palestrante, acompanhadas de uma breve explicação do ocorrido e
da falta de resultados. A esperança era que, talvez, o Prof. Carlos Alberto
pudesse descobrir algum tipo de fraude não identificada pelos peritos oficiais.
Isto feito, considerou sua participação no episódio encerrada e seguiu a vida.
Quase cinco meses depois do
registro do BO, o Del. Andrade recebeu um e-mail alentador, o anexo continha as
seis imagens que constavam na investigação, outras dezenove do mesmo evento, também
indicou um estúdio fotográfico em Oslo, Noruega, como proprietário do lote e
relacionou o nome do fotógrafo, dos participantes e o nome da revista que
encomendou e publicou o ensaio. Andréa sempre esteve certa, embora houvesse uma
semelhança espantosa, não era ela. O Prof. Carlos Alberto explicou que repassou
as imagens para uma organização mantida sem fins lucrativos pela Igreja
Ortodoxa em Israel que, utilizando ferramentas avançadas de buscas na internet,
identificaram a origem. Imediatamente o processo foi reaberto mudando o foco, o
escopo passou a ser descobrir quem foi o autor da divulgação e porque que
veiculou as fotos como se fossem da garota.
A vida de Andréa mudou. Dos
quase sete meses que se passaram entre o aparecimento das imagens e a
descoberta da fraude restaram a decepção com seus pais, a mágoa pelas amizades unilateralmente
interrompidas e o desencanto com seu então namorado. Ela foi convidada a
retomar seus estudos, porém a simples hipótese que um de seus colegas pudesse
ser o autor da maldade a fez optar por uma bolsa em outra instituição de
ensino. Nunca aceitou participar de circos armados pela mídia para divulgar a
sua história e desenvolveu uma profunda desconfiança nas pessoas de seu
entorno. Quando todos os que conviveu nos vinte e dois anos de sua vida, pais, familiares,
vizinhos, colegas, amigos e até seu namorado se convenceram que ela era
promíscua, dois estranhos acreditaram nela. A motivação do Del. Andrade era
compreensível, caso encerrado não é sinônimo de caso resolvido. Quanto ao Prof.
Carlos Alberto, o simples fato de investir uma parcela de seu tempo em um caso
onde todos os indícios apontavam para uma condenação e só a palavra de uma
desconhecida indicava o contrário, só podia ser justificado pela crença nas
pessoas e pela busca da verdade.
Andréa continua residindo no
interior paulista com sua avó e, embora já não evite, também não procura o convívio
com seus pais. Recusou polidamente as poucas tentativas reaproximação das velhas
amizades e rejeitou todas as tentativas de contato com o antigo namorado. As múltiplas
seções de terapia ainda não devolveram a ela a plena confiança nos bons propósitos
das pessoas.
Recebeu duas visitas do Del.
Andrade, ainda não encontrou uma oportunidade para conhecer pessoalmente o
Prof. Carlos Alberto. Andrea conseguiu com o Del. Andrade seu telefone e
conversou brevemente com ele, ficou emocionada ao ouvir a voz de uma das duas únicas
pessoas que acreditaram nela quando todos que a conheciam desde sempre estavam
convencidos de sua culpa. Soube por sua avó que ele recusou uma recompensa
financeira de seu pai, o que aumentou ainda mais a sua admiração. Ela
reorientou a sua vida, abandonou o curso de direto e está matriculada em uma
graduação em Tecnologia da Informação, quer se especializar em fraudes
digitais. Também está decidida a ir até Porto Alegre com o único propósito de
dar um abraço na pessoa que, mesmo sem nunca a ter encontrado antes, se
importou com ela mais que sua própria família.

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