sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Todos perdem




Roberto e Luciana, casal de prósperos executivos com pouco mais de trinta anos, oito vivendo juntos, alugaram uma lancha para um passeio de fim de semana em alto mar. O mestre arrais que conduzia a embarcação era um navegador experiente, de 45 anos, porte atlético, que obteve a autorização para levar junto a sua filha Aline, uma menina linda de 19 anos de idade.  Por um acaso do destino aconteceu um problema elétrico grave com a embarcação que os deixou sem motor e sem comunicações. Após quatro dias à deriva, a lancha foi jogada contra uma ilha com farta cobertura vegetal e abundância de água, porém desabitada. As esperanças de um resgate rápido desvaneceram-se em duas semanas e as quatro pessoas improvisaram uma moradia, uma cabana rústica com dois quartos. O casal ocupou um deles, pai e filha ficaram com o outro. O tempo passou e, dois meses depois, os quatro já tinham conseguido estabelecer uma rotina para garantir a sobrevivência, enquanto o socorro não chegava.  


Se os dias eram tranquilos, as noites eram um suplício para pai e filha. Enquanto Roberto e Luciana mantinham os seus hábitos, os sons que provocavam enquanto faziam amor deixavam Aline e o pai cada vez mais inquietos, principalmente a menina, que estava no auge de sua sexualidade e tinha dificuldades em controlar seus hormônios. Quando a situação estava à beira de um colapso, o mestre arrais procurou o executivo e propôs um acordo, pelo qual Roberto atenderia os desejos de sua filha, e permitiria que a Luciana saciasse a sua própria ansiedade.  Roberto considerou a proposta razoável, por certo atraído pela ideia de desfrutar do corpo jovem da menina, mas a sua companheira rejeitou de pronto. A situação estava confortável para ela e o companheiro e a aflição dos outros não era um problema deles. Além do mais, ela jamais consideraria a hipótese de se entregar para uma pessoa de nível social tão inferior ao dela.   

Uma noite Luciana acordou e não encontrou o marido ao seu lado. Desconfiada, procurou pela menina, que também não estava na cabana. Os dois chegaram uma hora mais tarde, procurando não fazer barulho, e a felicidade no rosto da menina estampava a certeza que tinham prevaricado. Com muita raiva, a companheira traída interpelou o casal aos gritos e, durante a discussão, apanhou uma faca e matou a rival com uma estocada certeira no peito. O barulho acordou o pai da garota que, enlouquecido pela dor, pegou uma pedra e golpeou com força a cabeça da executiva, matando-a instantaneamente. 

Esta é uma história fictícia, mas ilustra o que acontece quando pessoas colocam privilégios e o seu próprio bem-estar acima de necessidades coletivas. Existem situações onde não existem vencedores, e a tentativa de manutenção de vantagens pode significar que, ao final, todos perdem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário