sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Sobre 1964




Mais de meio século depois, tudo o que tenho lido sobre o movimento de 1964 pode ser dividido em duas categorias: (1) falsificação esquerdista, camuflada ou não sob aparência acadêmica respeitável; (2) elogios e justificativas toscas e sem critério, geralmente divulgadas por participantes ou militares que estiveram de algum modo ligados ao movimento e que têm dele uma visão idealizada.

Toda essa bibliografia, somada, não tem o menor vínculo com a com a história real. Serve apenas de matéria-prima, muito rudimentar, para um trabalho de compreensão em profundidade de uma análise que nunca foi feita de maneira isenta.


Uma exigência preliminar para esta análise, que até hoje negligenciada, é distinguir que o golpe que derrubou João Goulart e o regime que acabou por prevalecer nos vinte anos seguinte foram coisas distintas.

Contra o primeiro, nada se pode alegar de sério. João Goulart sempre foi um presidente fraco, omisso, que acobertava a intervenção armada de Cuba no Brasil desde 1961, estimulava a divisão nas Forças Armadas para provocar uma guerra civil, desrespeitava cinicamente a Constituição e elevava os gastos públicos até as nuvens, provocando uma inflação que reduzia o povo à miséria, da qual prometia tirá-lo pelo expediente enganoso de dar aumentos salariais que a própria inflação tornava fictícios. A derrubada do presidente foi um ato legítimo, apoiado pelo Congresso e por toda a opinião pública, expressa na maior manifestação de massas de toda a história nacional até então, a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, que foi bem maior do que todas as passeatas subsequentes contra a ditadura). É só ler os jornais da época – os mesmos que hoje falsificam sua própria história – e você tirará isso a limpo.

O clamor geral pela derrubada do presidente chegou ao auge em dois editoriais do Correio da Manhã que serviram de incitação direta ao golpe. Sob os títulos “Basta! ” e “Fora! ”, ambos foram escritos por Otto Maria Carpeaux, um escritor notável que depois se tornou o principal crítico do novo regime. Por esse detalhe você percebe o quanto era vasta e disseminada a revolta contra o governo.

O golpe não produziu diretamente o regime militar. Este foi nascendo de uma sequência de transformações – quase “golpes internos” – cujas consequências ninguém poderia prever em março de 1964. Na verdade, não houve um “regime militar”. Houve quatro regimes, muito diferentes entre si: (1) o regime saneador e modernizador de Castelo Branco; (2) o período de confusão e opressão que começa com Costa e Silva, prossegue na Junta Militar e culmina no meio do governo Médici: (3) o período Médici propriamente dito; e (4) a dissolução do regime, com Geisel e Figueiredo. 

Quem disser que no primeiro desses períodos houve restrição séria à liberdade estará mentindo. Castelo demoliu o esquema político comunista sem sufocar as liberdades públicas. Muito menos houve, nessa época, qualquer violência física, exceto da parte dos comunistas, que praticaram 82 atentados antes que, no período seguinte, viessem a ditadura em sentido pleno, as repressões sangrentas, o abuso generalizado da autoridade.

O governo Médici é marcado pela vitória contra a guerrilha, por uma tentativa fracassada de retorno à democracia e por um sucesso econômico estrondoso (o Brasil era a 46ª. economia do mundo, subiu para o 8º. lugar na era Médici, caindo para o 16º na era do PT). 

Geisel adota uma política econômica socializante da qual pagamos o prejuízo até hoje, tolera a corrupção, inscreve o Brasil no eixo terceiro-mundista antiamericano e ajuda Cuba a invadir Angola, um genocídio que não fez menos de 100 mil vítimas (o maior dos crimes da ditadura e o único autenticamente hediondo — contra o qual ninguém diz uma palavra, porque foi a favor da esquerda). 

Figueiredo prossegue na linha de Geisel e nada lhe acrescenta – mas não se pode negar-lhe o mérito de entregar a rapadura quando já não tinha dentes para roê-la. 

É uma estupidez acreditar que esses quatro regimes formem unidade entre si, podendo ser julgados em bloco. Castelo foi um homem justo e um grande presidente; Médici foi o melhor administrador que já tivemos, apesar de mau político. O que penso sobre Costa e Silva, a Junta Militar, Geisel e Figueiredo não pode ser escrito para o público sem ferir a decência. 

Em 1964 eu era um moleque, quando na universidade quatro anos mais tarde e pelos dezesseis anos seguintes fui líder estudantil e simpatizante dos comunistas, odiei e combati o regime, mas nunca pensei em negar suas realizações mais óbvias, como hoje se faz sem nenhum respeito pela realidade histórica, nem em ocultar por baixo de suas misérias os crimes incomparavelmente mais graves praticados por comunistas que agora falseiam a memória nacional para posar de anjinhos. 

Alguns dados históricos são significativos para avaliar a “ferocidade” dos chamados "anos de chumbo". Na Argentina, cujo regime militar foi o mais letal das ditaduras à direita os números indicam, segundo os ativistas declaradamente contra o regime, 30 mil mortos e desaparecidos entre 1976 e 1983. A lista oficial do Conselho Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas do país vizinho fala em 8.961. 

Os mesmos exageros ocorrem na divulgação dos dados cubanos, geralmente feitos com apoio da comunidade exilada nos Estados Unidos, francamente anticastrista. O "número mágico" citado é de 100 mil mortos e desaparecidos, incluindo aí uma multidão de afogados na tentativa de fugir da ilha. Um trabalho considerado mais ponderado e bem documentado é divulgado pelo projeto "Cuba Archive", coordenado por uma ONG de cubanos-americanos computa 7.326 mortos e desaparecidos nas prisões cubanas, a maioria (quase 6.000) fuzilada ou assassinada extrajudicialmente. "O Livro Negro do Comunismo", obra de referência europeia que sofreu críticas por supostas imprecisões, aponta até 17 mil fuzilamentos ao longo dos anos Castro. 

Já o Brasil, segundo os dados da Comissão Nacional da Verdade revelam 434 mortos ou desaparecidos nos 21 anos de governo de generais, encerrados em 1985. Este número nunca foi contestado por organizações de esquerda, que espertamente já cadastraram mais de 36 mil beneficiários na “Bolsa ditadura”, incluindo assassinos confessos dando aulas na USP e um caso estranho do filho de um desaparecido no Araguaia quatro anos antes dele nascer, que recebe até hoje indenização mensal do governo por supostos problemas emocionais decorrentes de crescer sem conhecer seu verdadeiro pai.

Carlos Alberto

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