O
clamor geral pela derrubada do presidente chegou ao auge em dois editoriais do
Correio da Manhã que serviram de incitação direta ao golpe. Sob os títulos
“Basta! ” e “Fora! ”, ambos foram escritos por Otto Maria Carpeaux, um escritor
notável que depois se tornou o principal crítico do novo regime. Por esse
detalhe você percebe o quanto era vasta e disseminada a revolta contra o
governo.
O
golpe não produziu diretamente o regime militar. Este foi nascendo de uma
sequência de transformações – quase “golpes internos” – cujas consequências
ninguém poderia prever em março de 1964. Na verdade, não houve um “regime
militar”. Houve quatro regimes, muito diferentes entre si: (1) o regime
saneador e modernizador de Castelo Branco; (2) o período de confusão e opressão
que começa com Costa e Silva, prossegue na Junta Militar e culmina no meio do
governo Médici: (3) o período Médici propriamente dito; e (4) a dissolução do
regime, com Geisel e Figueiredo.
Quem
disser que no primeiro desses períodos houve restrição séria à liberdade estará
mentindo. Castelo demoliu o esquema político comunista sem sufocar as
liberdades públicas. Muito menos houve, nessa época, qualquer violência física,
exceto da parte dos comunistas, que praticaram 82 atentados antes que, no
período seguinte, viessem a ditadura em sentido pleno, as repressões
sangrentas, o abuso generalizado da autoridade.
O governo Médici é marcado pela
vitória contra a guerrilha, por uma tentativa fracassada de retorno à
democracia e por um sucesso econômico estrondoso (o Brasil era a 46ª. economia
do mundo, subiu para o 8º. lugar na era Médici, caindo para o 16º na era do
PT).
Geisel adota uma política econômica socializante da qual pagamos o
prejuízo até hoje, tolera a corrupção, inscreve o Brasil no eixo
terceiro-mundista antiamericano e ajuda Cuba a invadir Angola, um genocídio que
não fez menos de 100 mil vítimas (o maior dos crimes da ditadura e o único
autenticamente hediondo — contra o qual ninguém diz uma palavra, porque foi a
favor da esquerda).
Figueiredo prossegue na linha de Geisel e nada lhe
acrescenta – mas não se pode negar-lhe o mérito de entregar a rapadura quando
já não tinha dentes para roê-la.
É
uma estupidez acreditar que esses quatro regimes formem unidade entre si,
podendo ser julgados em bloco. Castelo foi um homem justo e um grande
presidente; Médici foi o melhor administrador que já tivemos, apesar de mau
político. O que penso sobre Costa e Silva, a Junta Militar, Geisel e Figueiredo
não pode ser escrito para o público sem ferir a decência.
Em
1964 eu era um moleque, quando na universidade quatro anos mais tarde e pelos
dezesseis anos seguintes fui líder estudantil e simpatizante dos comunistas,
odiei e combati o regime, mas nunca pensei em negar suas realizações mais
óbvias, como hoje se faz sem nenhum respeito pela realidade histórica, nem em
ocultar por baixo de suas misérias os crimes incomparavelmente mais graves
praticados por comunistas que agora falseiam a memória nacional para posar de
anjinhos.
Os mesmos exageros ocorrem na divulgação dos dados cubanos, geralmente feitos com apoio da comunidade exilada nos Estados Unidos, francamente anticastrista. O "número mágico" citado é de 100 mil mortos e desaparecidos, incluindo aí uma multidão de afogados na tentativa de fugir da ilha. Um trabalho considerado mais ponderado e bem documentado é divulgado pelo projeto "Cuba Archive", coordenado por uma ONG de cubanos-americanos computa 7.326 mortos e desaparecidos nas prisões cubanas, a maioria (quase 6.000) fuzilada ou assassinada extrajudicialmente. "O Livro Negro do Comunismo", obra de referência europeia que sofreu críticas por supostas imprecisões, aponta até 17 mil fuzilamentos ao longo dos anos Castro.
Já o Brasil, segundo os dados da Comissão Nacional da Verdade revelam 434
mortos ou desaparecidos nos 21 anos de governo de generais, encerrados em 1985.
Este número nunca foi contestado por organizações de esquerda, que espertamente
já cadastraram mais de 36 mil beneficiários na “Bolsa ditadura”, incluindo
assassinos confessos dando aulas na USP e um caso estranho do filho de um
desaparecido no Araguaia quatro anos antes dele nascer, que recebe até hoje
indenização mensal do governo por supostos problemas emocionais decorrentes de
crescer sem conhecer seu verdadeiro pai.
Carlos Alberto

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