Nunca antes
As redes sociais podem ir para cima de qualquer
sultão do STF e cobrar o seu impeachment de um Congresso com pouca estamina
para enfrentar o ronco da rua – J
.R. Guzzo
Quando
o que era impossível começa a acontecer com cada vez mais frequência, é bom
prestar atenção — pode acontecer de novo. A última demonstração concreta desse
mundo em mutação radical foi a moagem, desmembramento e morte política de Renan
Calheiros, tido como invencível (até cair morto) por 101% das pessoas que “entendem
de política” neste país. E agora: alguém tem algum fato para sustentar que as
surpresas, enfim, pararam aí — que este foi o último episódio de intocável que
de repente vira farinha de rosca?
Renan
foi liquidado pelas redes sociais, simplesmente — tenta-se desesperadamente
demonstrar que não é “bem assim”, ou “nada assim”, mas não adianta nada, porque
é isso mesmo. Ainda há pouco, em outro episódio de primeiríssima grandeza, Jair
Bolsonaro foi eleito pelas redes sociais, com zero de ajuda da televisão, milhões
de reais, jatinhos ou mídia; ocorreu o exato contrário do que diziam quase
todos os comentaristas políticos e os “institutos de pesquisa”. Lembram-se? Os Ibopes
e Datafolhas garantiam até o dia da eleição que Bolsonaro perderia para
“qualquer adversário” no segundo turno. É difícil errar mais do que isso.
As
redes calaram a pretensão do Congresso em “negociar pesado” na formação do
ministério; os políticos, que iriam “dobrar o governo”, tiveram de engolir um
abacaxi com casca e tudo o primeiro escalão que está aí — inclusive com uma
dúzia de generais. As redes anularam qualquer possibilidade de soltar Lula no
tapetão, com jogadinhas de advogados “garantistas” e embargos auriculares,
aquela conversinha ao pé do ouvido dos ministros do supremo. Podem levar o
Congresso a cassar mandatos, autorizar processos penais contra seus próprios
membros e permitir que gente habituada a viver acima da lei durante toda a vida
acabe na cadeia. Podem aprovar reformas e novas leis que, de novo, toda a mídia
sempre deu como “impossíveis”.
Diante
disso, os ministros do STF bem que poderiam começar a pensar nos seus próprios
couros. Desde que acabou o regime militar, transformaram-se numa espécie de
orixás que nenhuma força do mundo é capaz de tirar do emprego; dois presidentes
da República já foram para o saco, mas os toffolis, e gilmares, e lewandowskis
etc. continuam agarrados no osso, mais firmes que o Pico da Bandeira na Serra
do Caparaó. Mas, e daqui para frente, com esse temporal que está ficando cada
vez mais bravo — vão continuar fora da lei?
Coisas
que nunca aconteceram antes sempre podem, por definição, acontecer uma primeira
vez. As redes sociais, que estão construindo realidades brutalmente inéditas
neste país, podem, muito bem, ir para cima de qualquer sultão do STF e cobrar o
seu impeachment de um Congresso com pouca estamina para enfrentar o ronco da
rua. Era impossível. Não é mais.
A
batata de Suas Excelências já pode estar sendo assada por aí.

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