sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

A Janela de Overton


Como manipular a opinião pública ignorando o mérito das questões



O que é “Janela de Overton”?

A Janela de Overton registra como pensa a maioria da sociedade num dado momento sobre um determinado assunto, as posições variam do absolutamente contra ao totalmente a favor. Os limites da janela são o máximo que um político, dependendo da sua ambição, pode sustentar publicamente. A maneira mais fácil de entender é analisando uma aplicação prática, por exemplo, o caso do aborto no Brasil. A maioria dos brasileiros é contra. Durante a campanha eleitoral de 2011, com o objetivo de ser mais palatável ao eleitorado católico e evangélico, a então candidata Dilma declarou-se contra, embora em registros anteriores gravados e filmados tenha reiteradas vezes afirmado ser favorável à sua legalização. É evidente que um militante do aborto pode ser eleito deputado, representante de uma minoria, mas teria poucas chances em se eleger presidente da república ou senador.

A principal questão prática é se existe a possibilidade de deslocar a janela para um lado ou para outro.  A resposta é positiva e este é o trabalho de especialistas (marqueteiros) em opinião pública. Empresas organizadas atuam na mídia para oferecer valores que conduzam ao pretendido deslocamento. Importante: manipular a opinião pública não é sinônimo de “conspirar”.

Seguindo no mesmo exemplo anterior, quando era favorável, Dilma dizia que nenhuma mulher pode gostar da coisa em si, que é uma agressão. Há dias, o ex-ministro e ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, afirmou que, “como homem (?)”, é contra, mas que respeita a decisão da mulher. O importante é que a discussão já é outra, não se discute sobre o aborto e sim “sobre as condições da mulher”. Esta é a técnica, para tentar deslocar a janela de opinião do “contra” para o “menos contra”, até chegar à “neutralidade” e, quem sabe, um dia, ao “a favor”, é preciso trabalhar algum outro valor relacionado ao tema. Para esta função, entram em campo os especialistas em opinião pública, assessores de imprensa, relações públicas, institutos de pesquisa, agências de lobby, etc.

Outro exemplo: A aprovação do Código Florestal. É evidente que a maioria da população se opõe que famílias sejam desalojadas ou que haja queda na produção de alimentos. Se a maioria é contra, dificilmente um político com ambições nacionais se alinha a esta causa. Mas por que não outra? A da “conservação da natureza” certamente é simpática e resultou no deslocamento da janela. É o que faz Marina Silva, que conta com assessoria de imagem profissional. É o que fazem ONGs americanas financiadas pelo setor agrícola dos EUA, que criminalizam agricultores brasileiros, transformando-os em sinônimo de desmatadores.

Outro exemplo, não faz muito um grupo de artistas gravou um vídeo criticando a construção da Usina de Belo Monte. Todos, inclusive eles, tem direito de expressar suas opiniões pessoais, porém não consta que nenhum deles seja, e isto não foi citado no vídeo, especialista em ecologia ou em geração de energia. Houve até um momento patético onde uma moça afirmou que hidroelétrica só produz energia limpa no deserto (?). Este pessoal está pondo em prática um truque conhecido, usar notoriedade conseguida em uma área para falar como autoridade em outra. O vídeo usou a popularidade de artistas para uma tentativa de migrar a janela da opinião pública de uma posição favorável à usina para uma contrária. Um grupo de alunos de engenharia civil e economia da Unicamp divulgou uma contestação baseada em fatos científicos à argumentação dos artistas, mas por não terem a mesma exposição da mídia, restou para a opinião geral que construir o complexo hidroelétrico talvez seja um erro. Até o mais bem-sucedido caso de terrorismo na área ambiental foi utilizado nesta ocasião, o tal Aquecimento Global. Afinal, o que pode ser maior do que “salvar o planeta”?



Verdades e mentiras

Governo, empresas e políticos gastam fortunas tentando vender “ideias” à opinião pública. Quase não há empresa ou pessoa pública no Brasil que não seja cliente de especialistas em assessoria e gerenciamento de imagem. O que se pretende é bem mais do que informar a sua “agenda”. O trabalho é mais amplo: trata-se de detectar um determinado sentimento da sociedade e passar a trabalhar para mudá-lo — eventualmente neutralizá-lo.

Voltando ao exemplo anterior, o trabalho de manipulação da opinião pública consiste em transformar o aborto numa decorrência natural dos “direitos da mulher”, mudando a ótica da discussão. O feto passa a ser uma mera derivação do seu corpo; se a incomoda e se ela não quer, tira. Também insistem escandalosamente em números estapafúrdios de 200 mil mortes por ano no Brasil de mulheres em decorrência de abortos clandestinos (mais que o dobro de óbitos por acidentes de trânsito). Outro argumento forte, que tende a mover uma fatia dos setores mais conservadores, diz respeito à segurança pública: crianças abandonadas pelos pais seriam potencialmente violentas e ameaçariam a sociedade. Na outra ponta, qualifica-se de “reacionários”, “conservadores” e “avessos ao progresso” os que têm uma posição contrária. Se der certo, a janela se move.



Sacolas plásticas

Os temas variam dos mais graves, como o aborto e o Código Florestal, que dizem respeito, respectivamente, à vida humana e à segurança alimentar, aos mais bizarros — mas nem por isso menos lucrativos: sacolinhas plásticas nos supermercados. Ninguém convenceria de bom grado um consumidor a sair do mercado carregando compras em desajeitadas caixas de papelão ou em sacolas de lona. Os incômodos são muitos. Optou-se então por um valor mais alto, defendido por autoridades influentes, a conservação da natureza. Em nome dela, nada mais de sacolinhas feitas de derivado de petróleo. Considerando que plástico não é alimento, as sacolinhas servem, quando muito, de recipiente para lixo. Sem um, aumenta o consumo do outro e o resultado tende ao empate. Os supermercados podem economizar uns trocos não fornecendo as sacolinhas, a indústria de plástico pode compensar a baixa do consumo de um produto com a elevação de outro, e só o consumidor perde. Ah, um detalhe: existe a sacolinha reciclável, feita com algum derivado do milho. Por mero acaso, o único fornecedor do produto é que estimulou o debate. Conveniente.



Efeito Boiada

Manipulação e conspiração são diferentes. É preciso evitar a paranoia de que o mundo é uma grande conspiração; de que forças secretas se movem nas sombras e que estamos sempre sendo administrados por alguém. A “Janela de Overton” não é uma “Janela da Conspiração”. Somos sempre influenciados pela TV, por leituras, debate público, opiniões alheias, propaganda, trabalho dos assessores de imprensa, assessores de imagem, administradores de crise, esse tipo de coisas. É normal e é inerente ao mundo livre. Chata é a vida em países totalitários onde só se pode ser influenciado pelo partido.



Como Entender o Processo

Não existe uma receita para identificar se uma pretensão de mudança da janela está em andamento. O ideal é verificar se as pessoas estão debatendo o mérito da questão ou algum tema associado, que pode até guardar algum parentesco com o assunto principal, mas que é um óbvio desvio. Se o foco da conversa for um tema paralelo, é trabalho da rede profissional dos operadores de opinião pública. Exemplo clássico: não faz tempo o caos nos aeroportos brasileiros e o péssimo serviço oferecido por algumas companhias aéreas acabaram surgindo no noticiário como evidências do sucesso do governo petista na política de distribuição de renda, que teria levado os pobres para o avião. A questão essencial ficou de lado: por que a infraestrutura aeroportuária não foi adequada a esta nova realidade? A janela da opinião pública, é evidente, estava numa posição crítica, contrária ao governo e à bagunça das companhias, mas se deslocou um pouco para recepcionar a tese do “bom caos”, gerado por motivos edificantes.


Nenhum comentário:

Postar um comentário