Como manipular a opinião pública ignorando o mérito das questões

O que é “Janela de Overton”?
A Janela de Overton registra como pensa
a maioria da sociedade num dado momento sobre um determinado assunto, as
posições variam do absolutamente contra ao totalmente a favor. Os limites da janela
são o máximo que um político, dependendo da sua ambição, pode sustentar
publicamente. A maneira mais fácil de entender é analisando uma aplicação prática,
por exemplo, o caso do aborto no Brasil. A maioria dos brasileiros é contra. Durante
a campanha eleitoral de 2011, com o objetivo de ser mais palatável ao
eleitorado católico e evangélico, a então candidata Dilma declarou-se contra, embora
em registros anteriores gravados e filmados tenha reiteradas vezes afirmado ser
favorável à sua legalização. É evidente que um militante do aborto pode ser
eleito deputado, representante de uma minoria, mas teria poucas chances em se
eleger presidente da república ou senador.
A principal questão prática é se existe
a possibilidade de deslocar a janela para um lado ou para outro. A resposta é positiva e este é o trabalho de
especialistas (marqueteiros) em opinião pública. Empresas organizadas atuam na
mídia para oferecer valores que conduzam ao pretendido deslocamento.
Importante: manipular a opinião pública não é sinônimo de “conspirar”.
Seguindo no mesmo exemplo anterior, quando
era favorável, Dilma dizia que nenhuma mulher pode gostar da coisa em si, que é
uma agressão. Há dias, o ex-ministro e ex-prefeito de São Paulo, Fernando
Haddad, afirmou que, “como homem (?)”, é contra, mas que respeita a decisão da
mulher. O importante é que a discussão já é outra, não se discute sobre o aborto
e sim “sobre as condições da mulher”. Esta é a técnica, para tentar deslocar a
janela de opinião do “contra” para o “menos contra”, até chegar à
“neutralidade” e, quem sabe, um dia, ao “a favor”, é preciso trabalhar algum
outro valor relacionado ao tema. Para esta função, entram em campo os
especialistas em opinião pública, assessores de imprensa, relações públicas,
institutos de pesquisa, agências de lobby, etc.
Outro exemplo: A aprovação do Código
Florestal. É evidente que a maioria da população se opõe que famílias sejam
desalojadas ou que haja queda na produção de alimentos. Se a maioria é contra,
dificilmente um político com ambições nacionais se alinha a esta causa. Mas por
que não outra? A da “conservação da natureza” certamente é simpática e resultou
no deslocamento da janela. É o que faz Marina Silva, que conta com assessoria
de imagem profissional. É o que fazem ONGs americanas financiadas pelo setor
agrícola dos EUA, que criminalizam agricultores brasileiros, transformando-os
em sinônimo de desmatadores.
Outro exemplo, não faz muito um grupo de
artistas gravou um vídeo criticando a construção da Usina de Belo Monte. Todos,
inclusive eles, tem direito de expressar suas opiniões pessoais, porém não
consta que nenhum deles seja, e isto não foi citado no vídeo, especialista em
ecologia ou em geração de energia. Houve até um momento patético onde uma moça
afirmou que hidroelétrica só produz energia limpa no deserto (?). Este pessoal
está pondo em prática um truque conhecido, usar notoriedade conseguida em uma
área para falar como autoridade em outra. O vídeo usou a popularidade de
artistas para uma tentativa de migrar a janela da opinião pública de uma
posição favorável à usina para uma contrária. Um grupo de alunos
de engenharia civil e economia da Unicamp divulgou uma contestação baseada em
fatos científicos à argumentação dos artistas, mas por não terem a mesma
exposição da mídia, restou para a opinião geral que construir o complexo
hidroelétrico talvez seja um erro. Até o mais bem-sucedido caso de terrorismo
na área ambiental foi utilizado nesta ocasião, o tal Aquecimento Global. Afinal,
o que pode ser maior do que “salvar o planeta”?
Verdades e mentiras
Governo, empresas e políticos gastam
fortunas tentando vender “ideias” à opinião pública. Quase não há empresa ou pessoa
pública no Brasil que não seja cliente de especialistas em assessoria e
gerenciamento de imagem. O que se pretende é bem mais do que informar a sua
“agenda”. O trabalho é mais amplo: trata-se de detectar um determinado
sentimento da sociedade e passar a trabalhar para mudá-lo — eventualmente
neutralizá-lo.
Voltando ao exemplo anterior, o trabalho
de manipulação da opinião pública consiste em transformar o aborto numa
decorrência natural dos “direitos da mulher”, mudando a ótica da discussão. O
feto passa a ser uma mera derivação do seu corpo; se a incomoda e se ela não
quer, tira. Também insistem escandalosamente em números estapafúrdios de 200
mil mortes por ano no Brasil de mulheres em decorrência de abortos clandestinos
(mais que o dobro de óbitos por acidentes de trânsito). Outro argumento forte,
que tende a mover uma fatia dos setores mais conservadores, diz respeito à
segurança pública: crianças abandonadas pelos pais seriam potencialmente
violentas e ameaçariam a sociedade. Na outra ponta, qualifica-se de
“reacionários”, “conservadores” e “avessos ao progresso” os que têm uma posição
contrária. Se der certo, a janela se move.
Sacolas plásticas
Os temas variam dos mais graves, como o
aborto e o Código Florestal, que dizem respeito, respectivamente, à vida humana
e à segurança alimentar, aos mais bizarros — mas nem por isso menos lucrativos:
sacolinhas plásticas nos supermercados. Ninguém convenceria de bom grado um
consumidor a sair do mercado carregando compras em desajeitadas caixas de
papelão ou em sacolas de lona. Os incômodos são muitos. Optou-se então por um
valor mais alto, defendido por autoridades influentes, a conservação da
natureza. Em nome dela, nada mais de sacolinhas feitas de derivado de petróleo.
Considerando que plástico não é alimento, as sacolinhas servem, quando muito, de
recipiente para lixo. Sem um, aumenta o consumo do outro e o resultado tende ao
empate. Os supermercados podem economizar uns trocos não fornecendo as sacolinhas,
a indústria de plástico pode compensar a baixa do consumo de um produto com a
elevação de outro, e só o consumidor perde. Ah, um detalhe: existe a sacolinha
reciclável, feita com algum derivado do milho. Por mero acaso, o único
fornecedor do produto é que estimulou o debate. Conveniente.
Efeito Boiada
Manipulação e conspiração são
diferentes. É preciso evitar a paranoia de que o mundo é uma grande
conspiração; de que forças secretas se movem nas sombras e que estamos sempre
sendo administrados por alguém. A “Janela de Overton” não é uma “Janela da
Conspiração”. Somos sempre influenciados pela TV, por leituras, debate público,
opiniões alheias, propaganda, trabalho dos assessores de imprensa, assessores
de imagem, administradores de crise, esse tipo de coisas. É normal e é inerente
ao mundo livre. Chata é a vida em países totalitários onde só se pode ser
influenciado pelo partido.
Como Entender o Processo
Não existe uma receita para identificar
se uma pretensão de mudança da janela está em andamento. O ideal é verificar se
as pessoas estão debatendo o mérito da questão ou algum tema associado, que
pode até guardar algum parentesco com o assunto principal, mas que é um óbvio
desvio. Se o foco da conversa for um tema paralelo, é trabalho da rede
profissional dos operadores de opinião pública. Exemplo clássico: não faz tempo
o caos nos aeroportos brasileiros e o péssimo serviço oferecido por algumas
companhias aéreas acabaram surgindo no noticiário como evidências do sucesso do
governo petista na política de distribuição de renda, que teria levado os
pobres para o avião. A questão essencial ficou de lado: por que a
infraestrutura aeroportuária não foi adequada a esta nova realidade? A janela
da opinião pública, é evidente, estava numa posição crítica, contrária ao
governo e à bagunça das companhias, mas se deslocou um pouco para recepcionar a
tese do “bom caos”, gerado por motivos edificantes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário